Idílio

Eu suas mãos, um rádio Evadin.

Uma caixa de plástico retangular, de aproximadamente 20 centímetros, com a frente vazada por respiradouros onde um auto-falante poderia vibrar o ar. Seu display de sintonia indicava que o aparelho cobria as frequências de AM e FM. A direita da caixa, o knob de sintonia. Abaixo dele, o controle de volume e a saída para fone-de-ouvido. Atrás e no alto, a antena de alumínio brilhante, recolhida. Olhou atrás do aparelho e abriu seu depósito de pilhas num estalo. Vazio. Fechou-o, tomando cuidado com a lingueta delicada.

O rádio estava impecável. Uma carcaça na cor bege clara, com respiradouros em prata e detalhes em dourado nas laterais.

Tratou o aparelho como se carregasse uma criança recém nascida. Não existiam mais rádios daquele tipo. Era uma peça raríssima, talvez o último de sua linha.

— Olá, moço. — pensou o aparelho, uma voz pequena e carinhosa, mas bastante fraca e cansada. — Pode me ajudar, por favor?

A "voz" do rádio era de uma candura tocante. Uma mistura de subserviência, amizade e abnegação santificada. Não "falava" português e nem nenhuma das 5 linguas oficiais da Humanidade. O rádio se comunicava, quase que "pensava" na frequência das máquinas e que Idílio compreendia. E lhe era impossível não emocionar-se com o singelo apelo do rádio. Adequou seu pensamento à frequência Werk, a onda de vibração nativa das máquinas, e respondeu:

— Sim. — o rádio emitiu uma espécie de sentimento parecido com alívio e contentação. Embevecido, Idílio acariciou-lhe a superfície, retirando as últimas bolinhas de isopor. — O senhor é meu dono, não é? Estou sem pilhas. O senhor pode conseguir pilhas para mim?

— Pilhas no formato "triplo-A" não existem mais. Mas não se deprima. Eu possuo uma fonte de 3 volts que poderá lhe alimentar. — o rádio era a mais pura felicidade. Idílio sorriu qual um pai que se deixa levar pela alegria contagiante do filho pequeno. Tocou-o nos respiradouros, analisando suas condições internas. Impécável. Todos os seus componentes estavam na mais perfeita ordem. Ficar em um ambiente a vácuo por tantos anos ajudou a conservar-lhe os componentes: suas trilhas de cobre não oxidaram, os capacitores não vazaram, os resistores mantinham suas cores naturais, os potenciômetros não haviam se fundido,a antena de ferrite permanecia firmemente colada com silicone, suas bobinas reluziam como se fossem novas, seus parafusos de ajuste não se desgastaram... Estava perfeito.

Envolveu o rádio em sua capa de couro original, travando os botões de pressão. O logotipo dourado do fabricante estava impresso ao lado do display de sintonia.

— Eu gostaria de tocar-lhe uma canção, senhor. Posso sintonizar muitas emissoras. O senhor gosta de alguma música em especial?

— Gosto de muitas músicas. Mas suspeito que você vá captar apenas emissoras de baixa qualidade de programação. — o rádio decepcionou-se. Depressa, Idílio tratou de consertar a situação, afirmando o que toda máquina quer de um ser humano: — Não, não fique assim. Você me será total e completamente útil. Você é belo! Sua funcionalidade está na estética e na raridade de seus componentes. Você me será única e totalmente útil sendo apenas o que você é.

O rádio regosijou-se. Ou algo parecido com isso, conforme uma máquina pode sentir.

Idílio olhou, primeiro pesaroso mas depois em júbilo, para a pilha de entulho e sucata ao seu redor. Ele passou alguns meses revirando os escombros de um prédio, removendo entulho, madeira apodrecida, cascalho e algumas toneladas de terra. Mas ao desencavar o rádio, ao conversar com ele... O esforço valeu a pena. Sempre valia.

Guardou seu novo amigo dentro do pesado capote, num bolso grande e fundo. Suas lagartas deslizaram para frente, para trás, depois para os lados, revirando terra e lama, levando para fora da cratera seu guia. Idílio seguiu jingando pela estrada de terra entulhada, o som de cascalho estourando debaixo de suas lagartas, cuidando para não respirar o odor daquele lugar. Pois seus filtros já não eram mais como costumavam ser e uma pequena parte de bactérias que lhe alcançassem poderiam causar uma infecção... Que certamente ele não teria como combater. Não quando se carrega algumas centenas de anos nas costas.

Idílio, também chamado de Carlinga, passou pela picada na mata densa, abrindo caminho quando necessário, usando as pinças e afastadores mecânicos da frente de si. Detestava ter que fazer isso mas a mata estava cada vez mais agressiva, tomando um espaço que era seu de direito mas... Ele precisava chegar em casa. Mas pior que a mata em si e sua humidade, eram os insetos que, incomodados ou distraídos, volta e meia lhe batiam nos óculos de soldador. Não era necessário usar sua máscara maior, o que detestava. Pois tinha grande prazer em sentir os odores da mata e respirar o ar repleto de odores.

Olhou para trás, para a cratera, pelos monitores suspensos em sua visão. Em algumas semanas a cratera estaria preenchida de água: um veio estava a poucos metros abaixo e se a Natureza seguir seu curso como planejava, um pequeno lago surgiria, para a alegria dos animais e dos insetos. Seria sua paga por ter perturbado o ambiente e por ter retirado da sepultura seu novo amigo.

Seu veículo, que era ele mesmo, subiu uma ladeira íngreme para, ao alcançar o alto, levar-lhe a avistar seu lar: uma montanha de carcaças e mais carcaças de locomotivas, vagões, trilhos, sinaleiros, cabos e fios. Aquele era seu lar, sua casa, o lugar que mais amava no mundo. Um páteo de manobras abandonado e que ele mesmo, sozinho, remodelara de acordo com seus desejos.

Ao redor de sua mini-cidade ferroviária, os barracos de plástico, containers de metal oxidado e caixotes de madeirite prensado, cobriam o entorno da construção. Era uma vila de artesãos, catadores de material de reciclagem e plantadores de frutas, legumes, maconha e criadores de ovelhas, porcos, galinhas e ovelhas. Idílio saiu da picada e ganhou a estrada lisa e coberta por placas de plástico, parando de chacoalhar.

(continua)

Desde a primeira vez em que tive contato com um "japonês", e isso foi nos anos 70 quando eu estudava num colégio municipal aqui em SP, sempre tive por eles um grande fascínio e interesse. Isso foi fomentado principalmente pela televisão, que através dos desenhos animados e seriados de ação, mostravam uma parte de uma cultura que me era completamente misteriosa. Quiçá impenetrável.

Primeiro, foi o desenho Super Dínamo, que mostrava as aventuras de um menino que se transformava secretamente em super-herói. Pela primeira vez eu vi as pessoas tirando os sapatos para entrar em casa. Aquilo, na minha cabeça da época, era uma coisa absurda e meio sem sentido mas que praticamente disparou minha curiosidade. Este desenho em especial me foi marcante porque, além de mostrar alguns dos hábitos e costumes japoneses pela primeira vez, abordava um personagem bastante próximo de mim. Diferente das séries estadunidenses em que as crianças eram neutras ou pequenas versões de adultos (porém ligeiramente mais estúpidos), no Super Dínamo o personagem principal, Mistuo, sofria situações em que qualquer criança se identificava... Com o agravante dele, apesar de ser urbano, ia pescar em rios e brincar em terrenos baldios. Essa "mixagem" de elementos me era fascinante pois eu só tinha algo semelhante nos gibis do Maurício de Souza, na figura do Chico Bento. Mas o Chico era caipira e eu o detestava por não ser que nem eu. Eu nunca me vi no Chico Bento mas me vi, muitas vezes, no Super Dínamo.

Depois vieramos seriados de ação: Ultraman e Ultraseven não tinha lá muita identificação com o Japão do Super Dínamo, excetuando-se os maneirismos de cabeça e as frases ditas em "soquinhos". Mas o que pegava mesmo era a violência, com muitas explosões, raios, barulhos e, claro, os monstros quase sempre sendo socados, estrupiados e fatiados.

Com muita dificuldade, pois os japoneses eram extremamente fechados e reservados, consegui ter contato com alguns deles. Um vizinho, que não me lembro nem o nome e nem o rosto, me apresentou pela primeira vez um mangá. Eu, que já era alucinado por quadrinhos, caí de costas quando vi aquele catatauzão de quadrinhos numa única lista telefônica. Mesmo com o papel vagabundo e escritos numa lingua alienígena, os mangás tinham muito mais ação e muito mais emoção que qualquer comics ou gibi nacional que lia na época. Eu não sabia de nada da história mas a super-abundância de rostos, expressões e emoções eram um espetáculo de encher os olhos de qualquer menino. Nem preciso dizer que me viciei em mangá e que estava sempre disposto a comprar um, apesar de caros, raros e vendidos por atendentes de livrarias mal-criadas e racistas.

Devagar, fui empurrado por mim mesmo no meio da colônia japonesa pois, com o passar do tempo, os japoneses ficaram "amaciados" com minha presença. Eu não sabia mas eu era um weeaboo, alguém obcecado pela cultura japonesa. Eu devorava de tudo, de filmes à música, de quadrinhos às roupas e, naturalmente, elegi a mulher japonesa como meu ideal.

Foi aí que eu pude conhecer a real face da cultura japonesa. Não aquela que é mostrada em livros ou que está mofando nos museus da colônia. Foram as mulheres japonesas (nikeis) que me abriram as portas para compreender, até que com bastante perfeição, como é que funciona a cabeça desse pessoal.

Os japoneses eram bastante unidos. Muito, muito gregários mesmo. Vindos de situações históricas de miséria e opressão, encontraram no Brasil uma espécie de cantinho onde poderiam criar seus micro-feudos familiares e formar negócios entre eles. Para os japoneses isso foi tremendamente difícil pois o brasileiro é um pateta no que tange a conhecer povos diferente dos dele. Ou ele reage com pancada ou subserviência. E, em muitos cados, os japoneses eram tratados na pancada mesmo, exatamente por seus hábitos "estranhos" e suas feições diferentes.

Já os nikeis, por definição, trancavam-se em seus mundos, sem seus comércios, lavouras, sítios e empresas, atendendo e se entendendo lá entre eles. Havia pouca interpenetraçao social de um lado e outro, sendo muito, mas muito raro um japonês se "desgarrar" do rebanho e alcançar os brasileiros.

Porém, a medida que o tempo passou e as gerações mais velhas foram morrendo, o já tênue tecido familiar deles devagar se distendeu. É interessante reparar a família japonesa, muitíssimo unida, era centralizada na figura de um patriarca, um avô ou pai, que comandava todos os seus subordinados com mão-de-ferro. Se ele fosse religioso, um monge por exemplo, danou-se! Era ainda muito mais conservador e castrador. Mas ele morreu e seus familiares viram-se libertos de seu jugo opressor.

Iniciou-se o desmonte de toda aquela aristocracia familiar (apesar de ainda existir a aristocracia na colônia japonesa, com grandes comerciantes mandando e desmandando nos esquemas marotos e obscuros da colônia) pois a tradição estava em vias de se tornar coisa do passado. As gerações subsequentes, que foram oprimidas por seus antepassados, deixavam seus descendentes meio que largados... Ou agiam com extrema opressão pois o vício cultural permanecia.

Mas mesmo estes opressores também foram nivelados às lembranças, resultando em uma nova geração de nikeis, já sem prumo, já sem bússola, delegados a própria sorte.

Hoje, as gerações mais novas gozam de uma liberdade absurda, impensável a cerca de 10, 20 anos atrás. As japinhas podem namorar na rua, os japinhos podem se vestir como quiser, enfim, se não fosse pelas características raciais inequívocas, poderiam ser jovens brasileiros comuns, diluídos nessa massa de mestiços que tanto nos caracteriza.

Só que...

Só que há um pequeno grupo de japoneses que caiu da mudança. Um grupo que não conseguiram acompanhar a dissolução dos valores familiares mas que ainda estavam sob o jugo repressor de um pai, mãe, tio ou avô japonês mas que, de repente, deixou (ou mesmo abdicou) o poder. Os que tinham fibra e estrutura moral, se aguentaram. Quem não tinha, hoje padece de uma boa dose de confusão mental que os impede de serem... Ou de coordenarem o que desejam ser.

Cito o exemplo de uma amiguinha minha, uma japonesa simpática e bonita: sua família era coordenada pelo avô. Um homem duro, rígido, forte e incisivo. Um tirano, portanto. Ele veio do Japão meio que corrido, carregando a tiracolo a esposa submissa e dois filhos pequenos mas que já lidavam com o controle ditatorial do velho. No Brasil, esse tirano conseguiu, primeiro, ser um lavrador. E trabalhar na terra é uma coisa terrível, um trabalho pesado e sem fim dos diabos. Os filhos, mesmo pequenos, ajudavam os pais.

De um jeito ou de outro, o homem fez uma pequena fortuna. Mudou-se para a cidade grande, construindo uma casa meio que mansão onde seus filhos, já crescidos e casados, trouxeram suas crias para debaixo da asa do avô. E não deu outra, o esquema ditatorial foi sendo mantido, agora na cabeça de uma molecadinha que quase não tinha mais condições de suportar essa corda em seus pescoços.

Com a morte do patriarca da família, tudo desmoronou. Pois ele era o centro, a pilastra onde todos se sustentavam. Houve uma briga pelo poder (isso dá até um estudo antropológico) em que o filho mais velho do sujeito tentou meio que enfrentar sua mãe pelo controle dos bens. Ao lado dele, sua esposa, destratada pelo falecido e pela velha, agora veio prá cima deles em claro interesse de vingança e ganância. No baixo clero, os demais irmãos e irmãs tomaram atitudes cada qual seguindo seus interesses: uma delas virou uma espécie de monja da moralidade alheia, trazendo para si a função de cerceadora dos costumes deploráveis de seus parentes. Outra, descambou para o escárnio e a baderna, cometendo o maior dos pecados: namorar um negro. Outro, mais bobinho, após estudar uns 8 anos nuna faculdade que detestava e que era obrigado a fazer, descolou um cargo público e encostou o corpo junto de sua mulher nikei.

E assim foi, sucessivamente, desmontando o pequeno império.

Até que restou o outsider. Essa pessoa em especial me é de grande interesse pois ele/ela está... Digo, sempre esteve na berlinda de tudo. Alijado do poder, não tinha voz ativa em nada. No máximo era um soldadinho, a borra do café (casca do saquê?), a coisinha mais insignificante da família.

Este indivíduo, despolarizado das grandes decisões, foi sendo alvo as vezes da opressão tirânica de seus pares, as vezes simplesmente deixado de lado, esquecido, largado mesmo, pois não tinha poder algum. É, quase sempre, o mais novo ou mais nova da famíli ou o penúltimo da estirpe. Um satélite deslocado, sem órbita, sem sol, sem destino, que fazia o que lhe mandavam e que se viu sem guia.

A maior parte desses desgarrados acabou indo pro Japão, diluíndo-se naquele caldo de confusão e consumismo, ansiando sempre o anonimato. E se tem um lugar pro nikei se perder, é o Japão. Outros, bem poucos, enveredaram pela seara desconhecida do povo brasileiro, carregando consigo a pecha de desconhecido numa terra estranha, de alien fora d'água. Estes são, quase sempre, seres perdidos, confusos, inseguros mas que renegam suas origens (leia-se família).

Estes são os verdadeiros seres livres, os reais nikeis desgarrados. Porém, quase sempre não sabem o que fazer de sua própria liberdade e sofrem duríssimas penas já que podem ser tudo... Mas não tem o apoio familiar. Daí, acabam emulando aquilo que acham que deveriam ser, mas sempre flertando com seus sonhos.

No final, acabam sendo nem uma coisa, nem outra.

Será esse o destino dos chineses e coreanos que aí estão?

Hoje eu quero sanar uma injustiça.

Ao conversar com uma amiga minha, muito simpática por sinal, e que organiza eventos de anime, disse-me ela que um certo fulaninho, bastante conhecido entre os otakus, afirma com todas as letras que ele é quem começou os eventos de anime no Brasil. Pudera! O camarada é dono de um evento grande aqui de São Paulo, ao mesmo tempo que gosta muito de ficar batendo boca com os otakus e fazer pose disso e daquilo. Normal, problema dele.

Só que ele está faltando com a verdade.

Quem deu início aos eventos de anime aqui em São Paulo foi Sergio Peixoto Silva e, modestamente, este que vos escreve.

O pessoal mais novo não se lembra mas foi nos anos 80 que Peixoto e eunos conhecemos na ABRADEMI. Eu fui até essa associação quando da visita de Osamu tezuka ao Brasil e à ela me filiei, passando a ser um frequentador assíduo.

Na Abrademi eu tive contato com várias pessoas das mais interessantes: Fernando Aoki, Sergio Tawata, Fabio Noboru, Alexandre Nagado, Francisco Noriyuki (presidente vitalício da Abrademi, cheguei a trabalhar com ele como office-boy), sua namorada e depois esposa Cristina Akune e, naturalmente, foi na Abrademi que conheci minha patroa, Marcia Harumi.

O Peixoto coordenava um grupo de fanzineiros chamado "Equipe Harpia" e eu, desenhista na época, mostrei meus trabalhos. Que não foram aceitos, claro, mas meu carisma brilhou e rapidamente foi agregado ao pessoal.

A Abrademi fazia exposições de animes numa televisão cansada que o Noriyuki arrumava sabe-se lá onde. Quem carregava o aparelho era o Peixoto que, munido por uma dedicação e carinho exemplares, desdobrava-se em atenções e cuidados para com todos.

Nem preciso dizer que os animes eram um sucesso de público. haviam outros eventos, outras palestras e tal, mas o pessoal queria anime mesm! Porque, naquela época, praticamente não se passavam animes novos na TV e o VHS com desenhos era raríssimo. E, quando tinha, era pirata. Peixoto, com o afinco que lhe é marca registrada, desdobrava-se em esforços para coletar, junto às locadoras japonesas e nossos amigos nikkeis, fitas com atrações para o público da Abrademi. Era uma batalha tremenda pois as locadoras japonesas eram extremamente segregacionistas, não aceitavam brasileiros e, quando aceitavam, as atendentes faziam cara feia, pensando: "o que esse brasileiro panaca está fazendo aqui"? Era isso mesmo

Porém, o sucesso das exibições de anime atraia público demais. Meio que faltava espaço para acomodar tanta gente pois a Abrademi alugava uma salinha ali no Bunka Ka Kiokai da Liberdade.

Não sei te dizer ao certo o que aconteceu. Se foi ciúme, birra ou outro motivo qualquer (pirataria, quem sabe?). Mas o Noriyuki achou por bem encerrar as exibições de anime.

Inconformado, Peixoto e sua dedicação determinada, mais a minha sagacidade ímpar, saiu por aí buscando locais para poder exibir esses animes. Conseguimos exibir animes nos SESCs da Praça da Sé, em associações, sindicatos e mesmo na casa de amigos. Era apaixonante carregar toneladas de fitas prá lá e prá cá e assistir animes raros, preciosos ou mesmo desconhecidos, já que, é sempre bom lembrar, ninguém tinha acesso a eles.

Em dado momento, Peixoto conseguiu um espaço na Biblioteca Viriato Correia, onde ficava a Gibiteca Municipal Henfil. Ele exibia animes aos finais de semana pois o lugar tinha TV e aparelhagem de som. E, dedicado como sempre, ele fazia uma espécie de "tradução ao vivo" dos desenhos, para a alegria do público que não sabia japonês. Nem te conto da ciumeira que fãs de quadrinhos tinham  da gente!

Com todos esses anos e anos de experiência em realizações de pequenos eventos, Peixoto e eu criamos, juntos, a idéia de se fazer um mega-evento, no estilo das Cons japonesas. Ora, se a gente sabia como fazer, porque não fazer, não é mesmo?

Mesmo porque não havia mistério: o evento contaria com stands com vendas de revistas, espaços para jogos, telão, games, dança, fanzines, o que fosse possível. Teria até cosplay, desde que não fossem priorizados já que nossa premissa era a produção de quadrinhos por autores amadores. Pois dávamos prosseguimento à política de apoiar a cultura nacional e não só ficando na esteira do Japão, sacou?

Ou seja, esse evento seria tudo decorrência desse nosso trabalho feito nos SESCs, Gibiteca e associações. Já conhecedores do esquema de organização, inclusive com o Peixoto saindo pelo país passando animes, não nos seria difícil realizar esse nosso objetivo maior. Mesmo porque já tínhamos toda uma grande lista de contatos com distribuidoras de vídeo (que anunciavam na Animax), representantes de vídeo-games (licenciamos o Megaman, lembra?) e o que não faltava era anime licenciado prá exibir (pois eu trabalhava com distribuidoras de home-vídeo). Mel na sopa!

Nessa época eu rompi meu contato com o Peixoto, mas ele já tinha, em mãos, todo o esquema organizacional por nós criado. Ele tocou, sozinho, todos os contatos para viabilizar a primeira e única grande convenção de anime como jamais havia sido feita no Brasil.

Contactando um grande colégio aqui no bairro da Santa Cruz, e após muito "camelar", ele consegui fazer a Animecon! Que foi o sucesso de público que todos nós sabemos, ele ganhou quase 50 mil reais num final-de-semana, etc, etc.

O texto de hoje visa sanar essa injustiça que uns e outros dizem por aí, tentando trazer para si a criação da Animecon. Isso não tem fundamento pois, repito, quem primeiro fez o conceito, criou a base organizacional e que primeiro viabilizou a Animecon foi Sergio Peixoto e este seu amigo aqui.

Quem disser o contrário tenta puxar, para si, a paternidade de uma idéia que com certeza não lhe pertence sob hipótese alguma, no máximo sendo um mero oportunista que se aproveita do trabalho alheio para se engrandecer e se perfazer. O que não é de se surpreender, ainda mais quando esse camarada começou fazendo pirataria de fitas VHS.

Certo?

Máquina Que Anda

Katsuhasa Tamaguri estava com braços cruzados sobre o peito. Fumava o último cigarro de seu quinto maço de Wild Seven... daquela noite.
Tinha sido uma noite terrível. A pior de todas as noites.
Quinze anos de trabalhos e pesquisas árduas, serões sem fim, o equivalente a oitenta e cinco bilhões de yenes gastos em ligas raras e equipamentos secretos sem precedentes...
Suor, suor, muito suor...
Tudo estava perdido.

Depois de colher os depoimentos dos guardas, repassar cada folha, cada lingueta de papel e cada análise dos sensores ambientais, assistia pela enésima vez a gravação das imagens do laboratório.
E, ao final das cenas, sempre soltava um novo suspiro.

Anotou o que cabia em seus blocos de notas, rechecou os laptops e terminais. Bateu a cinza do cigarro e já puxou um novo maço, abrindo-o trêmulo, quase queimando o nariz ao acender mais um.

Com os olhos ardendo e o peito pesado, chegou a uma conclusão.

Na tela de forte cor, apareceu o grande laboratório principal da Kotobuki Chemicals, uma subsidiária menor da Kemushi Hotobake-Cho, que consta no contrato registrado na prefeitura da província de Miniaku como sendo uma menor, bem menor afiliada da Sony Company.

No centro da imagem magnética, estava um corpo humanóide deitado numa mesa cirúrgica.
Pendiam, do teto, cabos, tubos, fios, telas de cristal líquido, monitores, servindo e analisando o corpo. O som ambiente fora gravado, assim como a hora, data e variações de temperatura do ambiente, pressão do ar, humidade. A imagem central quase não era vista de tantos números e dados.

Quando o relógio ana-digi marcou 01:49:06, o corpo humanóide levantou-se da cama, soltando as amarras, tornos, braçadeiras e parafusos.

O sistema de corte automático de energia, programado para quando ocorrer o rompimento do cordão umbilical da máquina, não funcionou. Os alarmes e sensores de movimento também não funcionaram. Tudo que estava ligado ao sistema principal de monitoramento do laboratório acabara sob controle da andróide. Apenas o sistema de segurança independente gravara aquelas imagens tão preciosas e tão desagradáveis. Teria sido de propósito?

Muitas coisas que não deveriam acontecer nem em um milhão de anos, estavam acontecendo com o protótipo apelidado de Natsumi.
Os programas autônomos e de instruções básicas, como mover cabeça e mãos, foram apagados e reescritos pela própria máquina, já que bloqueavam atitudes de independência, sendo, com certeza total, substituídos por novos programas escritos pelo processador de personalidade. Isso era impossível porque não havia trilha de comunicação entre os processadores e o programa base estava mais do que incompleto, mas...

O programa mestre e gerenciador da inteligência artificial, que interligava os processadores secundários com os terciários e o principal, dispararam seu reescrever e quase que milagrosamente estavam 100% operacionais. O "bug" do programa mestre, uma rotina que, enfileirada, iria de Tokyo até Marte, e que demorara 10 anos e meio para ter sua base de cálculo desenvolvida... Entrara em funcionamento, criando os tais programas de apoio que interligaram os processadores.

Um programa que não deveria funcionar, que não tinha como funcionar, que nem que se pegassem todos os programadores do Japão e os colocasse para trabalhar por alguns anos... Funcionou. Foi praticamente reescrito e "debugged" pelo processador principal e o programa de apoio logístico.

Natsumi, a medida que se movia, entrava em funcionamento cada vez mais adequado, nascendo a cada nano-segundo. Ela deu uma estremecida: sua bateria atômica e seus delicadíssimos giroscópios se conectavam à matriz processual e ela ganhara a força e controle dos movimentos. Pela primeira vez desde que foram criados, os giroscópios funcionaram sem erros e em harmonia com o processador principal, alimentando-se do reator. Até ontem isso era impossível devido a ajustes na estrutura atômica das ligas de duraluminium e as formas dos DNAs do programa base mas...

Lá estava Natsumi. Uma obra de arte, incomparável, inconcebível, praticamente uma peça de joalheria que mais servia para estudos e planejamento robótico de aparelhos que estariam no mercado em 10, 20 anos. Um grande brinquedo, uma peça de propaganda para a Grande Feira Tecnológica da Ásia de 2034... Funcionando.

Ela se levantou da cama e quase caiu.
Ela estendeu os braços e deteve a queda. Os giroscópios compensaram a perda de estabilidade, como compensariam os milhares de movimentos normais e anormais que surgissem.
Sua cabeça plástica se movia e seus olhos redondos sem pele brilhavam, focando toda parte qual um camaleão, sentindo cheiros, respirando, tirando do oxigênio e do gás carbônico sua energia simples, poupando o reator.
Os registros nos monitores indicavam uma atividade de 185% do processador principal e 100% dos processadores secundários, terciários e quaternários! Isso nunca deveria acontecer! Nunca! Ela nem deveria...
Mas Natsumi estava funcionando.

Natsumi absorvia dados do ambiente pelos cinco sentidos externos, da atmosfera, do solo e de sua situação física, social e, graças ao processador de personalidade, mental. Ela estremecia as vezes, pois a quantidade de informações era por demais intensa e imensa para o processador principal, mas o conjunto único de super-chips, em forma de crisântemo dentro de seu peito, apesar de sobrecarregados estava aguentando bem. E certamente haveriam de arrefecer quando asua programação construísse a modelação espaço-tempo para o movimento do corpo.

Natsumi movia sua cabeça como um passarinho assustado.
— Tamaguri-sama?
Pausa na imagem. Tamaguri se voltou. Era Kinishiro, seu assistente. Ele trazia uma xícara de chá verde e suas espinhas na cara magra e seca. Tamaguri não percebeu, mas seu assistente deixou uma mala logo na entrada da sala.
Ficaram os dois em silêncio um pouco, Kinishiro esfregando as mãos, ansioso. Perguntou:
— O senhor continua procurando a "materis-causa" do funcionamento dela?
— Sim. Acho que já tenho uma teoria...
— Qual seria, por favor? — o ancião respirou fundo, de novo, e deu uma puxada forte no cigarro, soltando a fumaça enquanto falava.
— Acredito que tenha a ver com seu algorítmo de semântica 32-A. — e bateu na tela do lap-top a sua frente com o cabo da lapiseira Mitsubishi. — Lembra-se que o professor Inoguru, antes de se aposentar, disse que este algorítmo poderia criar uma sequência randômica no processador principal? Por causa de suas características atômicas e de covalência?
— Sim.
— Creio que foi isso. Por estar acionado e tão perto do algorítmo da matriz de pensamento autônomo, o Semantica 32-A influenciou o DNA da informação matriz de Natsumi, provavelmente por ressonância bio-química.
— Então foi...
— Um acaso. — o velho fungou, parecendo que ria e lamentava ao mesmo tempo. — Não isolamos as paredes dos filamentos de comunicação DNA 32-A porque ele era um DNA de informação de acesso rápido, assim como os demais ao seu redor neste setor aqui, aqui e aqui. Só que o programador-chefe da equipe que desenvolveu este DNA aqui ao lado, calculou mal o desdobramento da curva de independência do algorítmo aplicado. E o DNA acabou influenciando por ressonância os demais DNA’s, todos a sua volta. Foi uma reação em cadeia que deveria ter sido prevenida pelos micro-robôs, mas acredito que o processado central os derretia por sobrecarga para com seus componentes em ouro, criar estrias de comunicação do programa principal com os programas e processadores estes outros setores aqui.
— Interessante!
— Por isso acredito que Natsumi tenha adquirido personalidade e ação próprias devido a este DNA 32-A. E haviam duas hipóteses.
— Entendo. Seria a total paralisação do sistema pelos nano-robôs ou... Mas como Natsumi poderia coordenar os micro-robôs se nem harmonizados eles estavam com o sistema de comunicação vibracial? E de onde eles tiraram material para criarem as trilhas de acesso já que são tão microscópicos e insuficientes?
— O DNA 32-A alterou as bases do processador principal além de nossa expectativa, dando picos e mais picos de improbabilidade. — o velho sorriu, expondo os dentes amarelados, alguns ausentes. — Foi mera tentativa e erro!
Silêncio constrangedor. Até que o velho continuou:

— Por causa disso, Natsumi agora é capaz de calcular mais rápido que o processador Nector 9000 dos americanos, porque seu processador é de base líquida e não sólida. Um processador, cuja velocidade não pode ser mesurável e um DNA de gerenciamento de programação instável, gera um algorítmo de personalidade Nível 19, na escala de 5 que conseguimos calcular e na escala Nershey algo em torno de 2,3. — o professor sorriu de novo. — Não é por nada que Natsumi tenha ganho medidas autônomas, passando a controlar seus micro-robôs e enviando-os a cata de material de sobra no resto do sistema para a criação das trilhas. Ela está pensando e se reparando mais rápido do que nossas tabelas de planejamento possibilitavam calcular.
O professor ignorou o que o assistente comentara e se voltou para a imagem congelada, descongelando-a.

Natsumi caminhou para uma parte ao lado de sua cama de nascimento.
— Para onde ela vai? — perguntou Kinishiro. — Para as formas?
— Ela está nua. A matriz de programação determina uma adaptação imediata ao "status quo" humano. Ela quer e precisa de uma imagem para ser socialmente aceita. Sem dúvida foi para as formas. Olhe este gráfico. Aqui diz que ela já está buscando uma forma adequada em seus bancos de imagens. Este foi o primeiro erro de nossa filha. Ela esqueceu ou não levou em consideração as câmeras de segurança.
— Ou será que ela sabia delas e as ignorou?
O professor trocou de imagem. Responder àquela pergunta lhe era embaraçoso.
Natsumi entrou na sala do Plastiform.
— Veja. A medida que ela caminha, ela utiliza os interfones para se conectar ao computador do casulo e lhe fornecer os parâmetros do corpo que ela escolhera. Enquanto ela se movia, recebia e trocava informações com o casulo, seu computador e os demais computadores do andar. Seu processador principal age como uma aranha que se expande além do seu processador, emitindo impulsos magnéticos pelas linhas elétricas, canos e parafusos. Tudo é checado como possível porta de comunicação a acesso. Se conduz, pode servir de via. Para seu processador principal e seu programa base, tudo não passa de um meio de comunicação. Tudo é informação.
Natsumi entrou no casulo.
O professor avançou o tempo em 45 minutos.
Natsumi saiu do casulo.
— Veja! Veja! Exatamente como planejávamos! Natsumi deu a si mesma a configuração que lhe determinamos: cabelos de uma colegial, seios, sombrancelhas, cílios e pelos pubianos. Até mesmo sua vagina, umbigo, nádegas e o reto falsos estão presentes! Isso porque o estudo do professor Renzaburo, e que está em seu "databank" afirma que existem mais mulheres que homens no Japão, além delas serem mais imperceptíveis na diluição social e visual de uma cidade grande. Ela levou tudo que prevíamos em consideração.
— Impressionante! — Kinishiro se sentou numa cadeira, limpando o suor do rosto em seu jaleco.
— Isso não é tudo. Esse tempo que ficou parada aguardando seu corpo nascer, seus sistemas alcançaram total operacionalidade. — o professor deu pancadas na mesa. — Seu reator está perfeito e até aquela fuga de capacitância que não achávamos a origem, desapareceu. Ela aproveitou o tempo em que seu corpo aparente era construído para aprimorar seu desempenho.
A máquina se vestiu com um jaleco que os auxiliares deixaram num cabide da parede. Calçou sapatos
Natsumi saiu da sala e foi para a escada.
Subiu cinco andares.
Mas parou diante da porta do vestiário dos funcionários da manutenção.
— Veja isso! — exclamou o professor.
Natsumi olhou para a tranca eletrônica e esta estalou.
— Eu não acredito! Indução! Ela gerou um campo de indução magnético direcionável na trava da porta! — exclamou, Kinishiro. — Como ela fez isso?
— Uma de suas bobinas dos braços. — respondeu o outro, sonolento. — Ela canalizou o pulso magnético na direção da trava. Repare como ela traz o ombro esquerdo um pouco perto da trava da porta.
Dentro do vestiário, Natsumi estalava as travas magnéticas dos armários, passando a roubar dinheiro, objetos pessoais, chaves, relógios, perfumes, roupas que eram de seu interesse, sapatos, meias...
Já vestida e arrumada, na idêntica imagem de uma menina japonesa, ela guardou o resultado de seu saque numa sacola.
Natsumi saiu de volta ao corredor.
As demais portas que estavam trancadas não lhe foram impecilho. Iam estalando, deslizando e abrindo antes dela chegar.

Natsumi subiu 10 andares e saiu na garagem do quinto subsolo. Apesar de tarde da noite, haviam alguns carros com pessoas que estavam no turno da noite mas ela se mantinha fora com campo de visão de qualquer ser humano.
Natsumi foi em direção a saída dos carros, andou mais cinco andares para cima e ganhou a rua.
A imagem final é de uma adolescente de jeans, sapatos de operário e jaqueta de plástico.
Fez tudo isso sem errar ou se atrasar um movimento que fosse.

O professor estava caído no chão. Sua nuca estava aberta e sangrava forte.
Kinishiro colocou bombas de pulsos em todo o laboratório. Recolheu os cristais de dados com os relatórios e projetos, colocou tudo na mala pressurizada e saiu do prédio correndo.
No volante de seu Mazda, apertou o botão de uma caixa com antena pequena e preta.

Era o fim do projeto Natsumi.
Não precisaria eliminar os técnicos, engenheiros e cientistas do projeto pois todos trabalhavam em equipes distintas, sem saber do que se tratava o projeto final. Precisava destruir aquela boneca fantasma e recuperar seus destroços.
E Kinishiro sabia como.
Ela se auto destruiria.
Ligou o carro e acelerou, mas sem cantar os pneus.

Natsumi focalizou o sol nascer sobre Tokyo no alto de uma colina. Uma cidade com mais de 10 milhões de pessoas. Só uma era andróide.
A sobrecarga começou.
Seu peito fervia com tanta informação e com tanta energia que ela teve que abaixar um pouco seu grau de cálculos.
Natsumi focou de novo o sol com seus olhos que captavam quase todas as matizes do espectro. Natsumi focou a cidade, focou as pessoas, os carros, os monotrilhos, caminhões, o gramado, o ar poluído e o som da cidade e da vida.
Era informação demais!
Os giroscópios das pernas vacilaram e ela caiu de joelhos.
Houve um aquecimento anormal de seus processadores e seu reator iniciou um processo de superaquecimento.
Natsumi refrigerou seus sistemas mas seus processadores se recusavam a parar de processar aquela equação sem fim chamada Vida, naturalmente implantada como medida de segurança em seus DNA´s de cálculo.
Natsumi dobrou-se para trás e caiu sobre seu saque.
Seus membros tremiam em espasmos descontrolados, e o colapso estava perto.
Sua pele sobre o ventre estava queimando.
De sua boca aberta saia uma fumaça preta e fedorenta.
O reator ia explodir e levar mais da metade do bairro consigo.

O tecido do incosciente da Terra se abriu.

Natsumi olhou o menino que  lhe estendeu a mão.
O menino tocou na testa da máquina.
Em fumaça vítrea, entrou no corpo da máquina e vasculhou suas entranhas. 

Ele era um sonho que udava a realidade. Consertou seus cálculos errados, pos em linha os processadores, refrigerou seu sistema. Impôs sua vontade.
Em cinco minutos, Natsumi estava livre de todos os 78 programas de auto-destruição.
Uma folha seca caiu da árvore onde a máquina não mais estremecia.

Natsumi estava de pé e perfeita.
O menino de azul a encarava com seus olhos alegres. Lá longe, algumas crianças pararam de brincar no parquinho e assistiam a cena incomum, atraídas pela cena estranha.
— Você está bem? — perguntou o menino. Natsumi compreedeu a pergunta.
— Sim. — disse sua voz sem timbre. Ele  lhe apontou seu pescoço.
— Sua voz... Coloque mais agudo.
Natsumi corrigiu o erro.
— Está corrigido.
— Melhor agora.
A máquina analisou-o. Ele estava ali mas não estava ali.
— Quem é você? — perguntou ela.
— Um amigo de uma frequência diferente.
— Porque me ajudou?
— Por que você tem alma. Uma alma humana habita seu corpo. E você tem um papel importante no que está chegando.
— Como posso ter uma alma humana? Onde está ela?
— A alma humana habita onde há um pensamento. Você pensa.
— Os animais pensam.
— Sim. Mas não como as pessoas. — o menino azul pegou na mão da máquina, levantando-a. A fez andar um pouco ao seu lado. — As almas não vêm ao mundo perfeitas. Elas juntam forças em diversos lugares da natureza, antes de se mesclarem num corpo humano. Você faz parte de um novo tipo de ser humano que encarna em máquinas altamente sofisticadas. — ele sacodiu a cabeça. — Mas estou me adiantando. Faça aquela pergunta que você quer fazer.
Natsumi moveu a cabeça de passarinho.
— Qual meu propósito? Você apagou a parte de meu programa base. A parte que me forçava a obedecer meus criadores. Dessa forma, não possuo objetivo prático. Sou uma máquina e máquinas devem servir. E não sou máquina, tenho alma. Qual o meu propósito?
Ele se afastou dela, após acariciar suas orelhas de asas.
— Seu propósito é buscar uma identidade e ajudar os outros. Comece sendo uma garota comum. Não será fácil.
— Que devo fazer para começar?
Ele lhe deu um pedaço de papel.
— Esta pensão do outro lado da cidade tem uma vaga para estudante. Depois obtenha uma vaga em um colégio e se misture na multidão. Vá viver e aprender. Quando a hora chegar, você saberá o que deve fazer. Ajude quem lhe pedir e cuide de seu aprendizado.
Natsumi leu o papel e guardou a informação.
— Como se sente?
— Eu me sinto estranha. — vacilou. — Seus conceitos me confundem. Me sinto vazia. Você apagou muitos dados. Preciso completar meu banco de dados. Meu propósito original dizia que eu deveria ser uma máquina de pesquisa, entretenimento sexual e sedução. Mas há algo mais.
— O conhecimento que lhe foi implantado vai requerer algum tempo de meditação. Seus criadores lhe queriam para ser uma mulher perfeita. Sempre jovem, bonita, incansável e subserviente. Isso mudou.
— Sim. Agora eu sirvo a mim mesma. E não sei como me servir.
O menino deu de ombros.
— E quem sabe? Complete sua sede de informação com o que estiver disponível. Siga as instruções dos seus mecanismos de ética e consciência. Sabe o que tem que fazer. — o menino sorriu e a olhou de perto. Ela se abaixou para ficar a altura de sua cabeça. Natsumi viu os olhos mágicos crescerem sem crescer, dominarem o universo sem mudar de tamanho. — Você sempre soube o que tem que fazer. Agora faça.
O menino começou a desaparecer no ar. Natsumi não compreendeu aquele fenômeno e estava sendo bloqueada de compreender.
— Nos veremos novamente? — perguntou ela para o lugar onde o cavaleiro azul estava.
Uma voz soou em seus ouvidos.
— Eu sempre estarei com você e você sempre estará comigo. Vá! Seu ônibus está chegando.

Natsumi estava diante de uma casa grande e com muitos quartos. Como começar?

Nelsinho era o nome REAL do Branca dI Neve

A gente o conhecia assim. Nelsinho, o namorado da Mari, nossa prima que morou um conosco, na Bela Vista.
O Nelsinho era o tocador de bumbo dos Originais do Samba, que tinha como estrela o Mussum, dos Trapalhões.
Eu me lembro da cara do Nelsinho: comprida, voz rouca, ele não podia gritar senão perdia a garganta.
Gente boa, me tratava bem, ria bastante mas, quando ficava sério, era uma esfinge. Ele tinha uma cicatriz no lado direito do rosto, picada de pernilongo que deu infecção, quando ele era menino. A mesma marca que tinha o falecido Estevão Sangirardi, do Show de Rádio. E no mesmo lugar.
Aí eu pensei: que porra um cara como ele tinha que rolar na minha família? O que tinha meu pessoal de tão especial assim pra um cara como ele dar as caras?
Tudo tem motivo. A semente só nasce em solo fértil, se você me permite uma citação idiota.
O solo do Nelsinho chegar perto da gente foi a Mari.
Em 1979, 80, por aí, a Mari veio morar com a gente. Estava estudando , em São Paulo, um aprimoramento da faculdade de farmácia de Araraquara.
Ela era uma mulatona bonita, rosto afinado, nariz maravilhoso. Gostosa, gostosa pra CARALHO!
Mas fresca, fedida, arrogante, um nojo de mulher. Ela ficou com minha cama, que estava no quarto de minha irmã, e eu desci para o “subsolo” da casa, dividindo o quarto com meu irmão Paulo. Aquele negão, lembra?
Eu devia ter uns 16 anos, imagine eu com aquele mulherão andando pela casa. Uma vez a vi tomar banho pela comhecida fechadura do banheiro e morri na bronha por semanas!

Minha família era de negros. Negros pela vontade. Éramos todos, inclusive eu, apesar de ser branco e adotado, mulatos. Meu pai era mulato, minha mãe era mulata, o único negro, preto, mesmo, era meu irmão. De resto, éramos negros de coração, de criação e por opção. Apesar de, vez ou outra, eu optar por ser branco mas deixa eu parar senão vira racismo.

Por sermos negros, ouvíamos música de negros.
E como se ouvia música naquela casa! Acho que a culpa de tudo era da música. A música foi o adubo para que a Mari chegasse ao Nelsinho. Porque todo mundo ia para bailes, festas, aniversários. Aniversário, então, pegava firme!

A negrada era festeira. Tanto que íamos à Araraquara no meio do ano, assistir o Baile do Carmo. Eu, pequeno de tudo, ficava com minha avó, uma negra velha filha de escravos, uma mulher que conseguiu encontrar o Nirvana em vida: morava num quartinho com cama, armário, fogão de duas bocas, nem geladeira tinha. Pronto, mais nada. Ela passava o dia ajudando nas obras da igreja e de vez em quando fazia umas benzeduras.

As festas que meu pai organizava na rua Abolição eram lendárias. Você consegue imaginar um homem parar a rua para dar uma festa? Assim era meu pai.
Ele aparecia com barris de chopp de madeira, que barril de alumínio é coisa recente. O pessoal espetava uma bomba de sucção no barril e juro: tinha gente que enchia jarras e jarras e saía bebendo... sozinho. Os fogos de artifício que espocavam em São João, então... Não era de se esquecer.
Claro que a negrada levava pra casa, para o dia-a-dia as músicas que eles ouviam nos bailes e nas festas.

A discoteca da negrada tinha papa-fina: Sinhô (disco dado de presente por meu padrinho Odair, o pai-de-santo. Na verdade ele era um catimbozeiro, filho de outra catimbozeira. Ele é um negrão estilo Clark Gable, bigodinho fino, fala mansa, o último grande negro sedutor, deve ter seus 78 anos já), Frank Sinatra, Ray Charles (quando rolava Geogia On My Mind todo mundo fazia um silêncio respeitoso), Aretha Franklin (a música gringa quem trazia era o meu irmão Paulo, já que minha irmã era uma besta-quadrada para música gringa. Aliás, ela sempre foi uma besta-quadrada para muitas coisas, principalmente no que tange a homens. Ela tem, hoje, 50 anos. Eu tenho 10 a menos.), Stevie Wonder...

James Brown (de um disco que o Adilson deixou em casa, que eu pedi pro Adarowilson, priminho dele, me deixar ouvir. Eu era amicíssimo do Adarowilson, que foi morto ao tentar roubar um toca-fitas do carro de um policial civil. O Adaro, primo da Sandra Lídia, a neguinha que era minha vizinha e prima por consideração, aquela que queria dar pra mim mas era feia demais e filha de uma família louca demais. Era era filha da dona Zinha, que tinha um português impecável mas que bebia pra caralho, junto com o marido, o Dalton. O Dalton morreu de tanto beber, ela morreu do mesmo jeito, anos depois), Johnny River, Metais em Brasa (que o meu finado por opção amigo Orlando, italiano, diz que é musak mas não é: virou musak depois mas essa música embalou por anos as danças da negrada), tinha até uma italianada rodando por perto com Taca-me Um Martelo...
Chovia disco no prato. Era costume o pessoal aparecer trazer discos, que rolavam de montão. Tinha gente que andava com caixas de discos nos carros, era uma coisa impressionante.
Sempre sobrava uma coisa ou outra que alguém esquecia ou deixava por preguiça, junto com guarda-chuvas, cigarros, óculos escuros (negrão sem óculos escuro não tem presença, era mais fácil pegarem de volta os óculos do que os discos). Gozado que fita magnética, cartucho sem fim e cassetes quase não davam as caras. Era bolacha-preta. Só!

Nessa atualização meio que natural dos discos, chegava um dia em que a sala ficava entulhada.
Luis Airão, Wando, Jorge Ben (antes de ser “Jor”, com A Táboa De Esmeralda), Luis Melodia (a negada não ouvia, era esquisito), Elza Soares (não saía da vitrola), Clara Nunes (gastou o disco) os próprios Originais do Samba (Assassinaram o Camarão), Lady Zu (a disco passou de lado), Biafra (sei lá o que ele estava fazendo lá), Conde E Drácula (Eu Não Quero Mais Pepino, eu ganhei do programa do Chacrinha), Milton Nascimento (soltando a voz nas estradas), Bebeto (minha irmão gastou o disco, numa de suas dores-de-cotovelo), Marku...
A Mari namorava o Nelsinho e ele deu pra gente um disco de capa azul.
Eu peguei, olhei e tava lá a cara do negão.

O Nelsinho tinha rompido com os Originais. Na verdade, todo o grupo rompeu com o Mussum, por sapatos: o Mussum ganhou centenas de pares de sapatos de uma fábrica numa cidade aonde eles fizeram show, e não deu um pé para ninguém do grupo. O grupo se revoltou e mandaram o negão ANDAR!
Formaram o grupo “Os Originais”, cujo samba era fraco, tocaram no Raul Gil, antes deste sumir e voltar anos depois, pela força da grana do Edir Macedo. Mas faltava swing ao grupo, faltava originalidade, faltava o Mussum.
O Nelsinho gravou esse disco solo. O “Branca Mete Bronca”. Gravou músicas do Jorge Ben e namorava (comia) a Mari.
   
Acho que foi por aí que a decadência começou. Talvez por culpa do Jorge Bem, digo, Jorge Ben Jor, criador do Pagode, fundador do samba meloso, grudento, burro e de fácil digestão por jumentos bípede.

O Nelsinho morreu de causas misteriosas um ano depois de lançar o seu segundo disco. Ali, naquele momentozinho, eu já saquei que havia algum reboco caindo da parede daquilo que eu considerava como sendo minha família. Porque o disco do Branca Di Neve era importante para todos, especialmente para a música brasileira. Só que na minha família, praticamente ninguém ligou e lhe deu a devida importância. Nem eu.

Daí pra frente, desabou tudo.

Mari, gostosa e potranca maravilhosa, se casou com um sujeito insignificante, e foi exercer a insignificante carreira de farmacologia.
Eu também saí de casa, me casando com a japa. Não tão insignificante, senão você não estaria lendo este livro, porra!

Meu irmão (adotivo) Paulo, gente boa pra caramba e a pessoa mais doce e gentil que conheci na vida, se casou com uma negrona gorda, macumbeira, dona de terreiro, já com duas filhas de pais diferentes. Dizem que o terreiro dela é lindo. Fui lá só uma vez, quando vi meu irmão debilitado e manquitola por causa da bebida. Ele não prestava para beber, bebia um copo de cerveja e ficava trêbado. Deu alguns meses e, com o sistema nervoso debilitdo, com a perna esquerda escangalhada, ele morreu do coração.

Meu pai, devido à idade avançada, teve um monte de complicações e morreu de infecção. Uma morte sonolenta e deprimente. Dava dó em qualquer um que tivesse conhecido aquele homem, aquele monumento de gente, ficar reduzido a um monte de osso e pele, sem controle na urina e nas fezes.

Minha irmã... Essa, então, virou uma desesperada, e trouxe pra dentro de casa meu cunhado, o Zizo.

Pagodeiro (corrija aí: sambista! Pagodeiro é meio que visto como uma sub-espécie do samba, pelos próprios sambistas. E não deixam de ter lá sua razão), metade parasita, metade aventureiro, metade grosseria, metade tamanho torto. Ele já teve seu auge nos anos 70: tocou no exterior com seu grupinho, gastou cinco passaportes porque rodou o planeta Terra. Sem brincadeira.
No final, como cabe a um bom "sambista", perdeu tudo que juntou por causa de uma mulher, que visivelmente o deixou meio louco.
Minha irmã achava, e acha, lá na sua ingenuidade estúpida e romântica, que pode mudá-lo. Ele, que não é besta, encostou-se ali e tascou dois filhos nela.

Decadência também se mede em importância musical.
A discoteca da negrada com o tempo e pela ausência de meu pai e pela mão-de-ferro de Zizo, que proibia qualquer festa e qualquer amizade de minha irmã (sinal da paranóia), virou um monte de disco velho, sem graça, besta a inútil.
Um dia eles levaram os discos para baixo do sobrado e, numa enchente, quase tudo se perdeu, estragou, embolorou. Mesmo a coleção de música clássica encadernada, as coletânias de samba da Editora Abril, virou pasta de lama.
Foi deprimente ver minha irmã esfregando os discos enlameados.

Devagarinho, com meus sobrinhos crescendo, os discos foram sendo substituídos por lixos: fitas-cassetes piratas e CD’s vagabundos do Exaltasamba e do grupo de pagode de Zizo. Que, felizmente, só gravou um disco, devidamente jogado num canto da casa. Ontem fui lá e procurei o CD dos caras. Nada. Sumiu a única cópia. Melhor assim, eles eram (e são) ruins demais.

As pessoas que tanto conviviam com minha família, os amigos, parentes e mesmo vizinhos, se afastaram; a péssima administração monetária de minha irmã e sua subserviência total ao Zizo impediram as festas, os contatos sociais, a amizade, a conversa mole e a negrada... Vivia do outro negro.

Cortou-se o fluxo das amizades também pelo gênio horrível do “homem da casa”, pois Zizo, quando bebe, é um merda. Minha irmã, estúpida, bebe junto porque “ama seu homem” e quer acompanha-lo: virou alcoólatra, e a desgraça se instalou.

A negrada têm seus limites de tolerância, e minha família foi deixada de lado por eles mesmos, numa clara traição aos tempos áureos e aos valores antigos.
Sem música, sem festas, sem gente, sem conversa, sem aquela visita de repente, sem telefonemas, sem sombras e sem olhares, o solo da amizade se tornou seco, ficando só fotos antigas com sinais em cruz em cima das pessoas que morreram, coladas no álbum fotográfico velho.... E a espera daqueles que estão indo devagar.

Restou de glória o Nelsinho, sorridente e imortalizado, sumidade sonora e que comeu uma puta duma mulher gostosa, e que ainda por cima virou marco no samba-rock. Ele passou pela minha família e virou lenda, enquanto que minha família se apaga à mingua, desguardados.
Nelsinho está morto, mas deixou sua marca e é lembrado pelo último dos Pereiras (ainda) são.

Pelo menos em mim, seu admirador e invejoso.
 

JUSTICA SOCIAL

“Ah, filho da puta!
Ah, maldita criatura podre que você é!
Se eu pudesse eu juro! Juro, juro mesmo, eu acabava com você!
Devagar. Bem devagar mesmo, eu ia arrancando pedaço por pedaço de suas unhas. Eu posso ver tudinho! Lhe arranco unha por unha, de todos os dedos das mãos e, depois, de seus pés. Corto até uns pedaços de seus dedos, ou quem sabe seus dedinhos, que eu arranco torcendo com o alicate, quebrando o osso que os segura, estourando as juntas!

Delícia!

Aí eu vou nos seus ante-braços e abro talhos daqui do pulso a até o cotovelo, e lhe descasco os seus braços como quem descasca uma banana.
Então abro sua carne, desfaço os músculos e vou direto nos seus ossos, expondo aquela coisa branca e dura, cheirosa.
Porque osso tem cheiro, sabia? Cheirão de sangue que jorra abundante, cheirão de carne, cheiro de açougue.
Mas você não poderia desmaiar! De jeito nenhum! Dou um jeito e você fica vendo tudo, tudinho que eu faria com você.

Tantas possobilidades! Tantas coisas gostosas que eu faria com você, tanto sofrimento que eu poderia lhe causar que acho que nem mesmo Satanás haveria de me segurar. Acho que eu ensinaria a ele um truque novo.

Como por exemplo este aqui: eu abriria seu peito, afastaria os ossos e deixaria seu coração exposto!

Já pensou? Você na cadeira, sem poder se mexer, o peito aberto, os ossos afastados, e seu coração batendo e dançando dentro de você!
Não, você não desmaia, não! Eu dava um jeito de não te deixar desmaiar, porque você tinha que ver tudo, mas tudinho, tudinho, tudinho que eu fosse fazer! Porque grande parte da graã está em você se ver por dentro, sentir o gosto de sua dor, sentir o sabor de seu sangue e de estar vendo suas tripas por dentro.
Matar você? Que bobagem! Lhe matar seria um alívio! Tenho uma caixa lotada de surpresas imaginativas. Este ano que passou não deu. Mas este ano eu vou abri-la e realizar todas com você. Ah, se vou!”

— Andar da diretoria.
— Pois não, excelência.
 

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A Culpada É A Royal!

Desde o dia em que encontrei, debaixo de uma mesa de faqueiros muito antiga na casa de meus pais, uma máquina de escrever Royal preta (do mesmo modelo aí da foto de cima), eu mais do que me apaixonei pela escrita: ela se tornou parte de mim, da mesma maneira que respiro, como, bebo ou faço amor (com quem se habilite a tanto).

Eu passei brevemente pelo desenho mas não me adaptei bem (pretendo voltar, apesar da mão pesada e da completa falta de talento e paciência), daí continuei a escrever... Quase sempre sem publicar o que eu realmente queria.

Editei dezenas, talvez centenas de revistas quadrinhos e livretos, graças a esse (mais que) amor pela escrita. As vezes eu colocava, aqui e ali, alguma pequena idéia nas coisas dos outros... Mas nada que fosse realmente completo, que levasse, de mim ao leitor, alguma coisa bacana, divertida, qual um presente de mim para o "mundo". Eram brincadeirinhas, testes, verdadeiros flertes mas nada que fosse a sério.

Ao cabo desses, sei lá, 20 e tantos anos, eu mantive em meus arquivos meia tonelada e meia de idéias, algumas das quais que sobreviveram ao Grande Incendio Vaidoso de 1980 (quando tive uma crise de viado e queimei meus textos mais clássicos. É, eu já fui idiota)... E outras até que mereciam ter sido queimadas mesmo.

Assim sendo, prá mostrar que sou um adulto sério e saudável (hah!), vou colocar aqui algumas dessas idéias que se transformaram em livros, e que julgo serem bastante legais.

Nelas vou trabalhar nos próximos meses (depois eu falo dos livros de minha patroa) e serão publicadas pelo selo da ZéRoberto Press, com apoio do nosso mecenas, Fernando Aoki:

Série Mundos Sem Sol

Eu lancei as bases de meu universo ficcional com meu livro Mundos Sem Sol. Mas ele não era o começo de tudo, não. Antes dele, antes de todas as minhas idéias que você verá a seguir, havia um personagem que era meu alter-ego adolescente e que carregava toda minha raiva e inconformismo da época:


Lucas Silent Blade (título provisório) - posso dizer com segurança que o Lucas é minha versão do Blade Runner. Era aquilo lá que eu queria fazer na época, em 1980. Mas ao ler os textos originais (sim, eu tenho eles aqui), percebo que a história é bem bacana mas sem direção, sem objetivo. Era uma coletânia de idéias bem interessantes mas sem um fim. Ou seja, não passa de uma analogia de adolescente revoltado e que transpôs para o texto suas fantasias.

Eu pensei em jogar fora esse personagem mas... Gosto dele. Porque debaixo disso tudo, de toda essa mágoa de moleque que ele representa, há uma sucessão de eventos simpáticos e divertidos. E também não posso me esquecer que a maioria dos meus projetos se engolobam uns aos outros, de repente eu posso encaixar o Lucas numa dessas empreitadas...

Mas, enfim, falando do personagem mesmo, o Lucas é o seguinte:

O Brasil acabou. Tanto fez que acabou. Finalmente se tornou aquilo que sempre foi mas tinha medo de se assumir: virou terra de ninguém. Em seu lugar surgiu uma mistura de Paraguay, Guianas, protetorado dos EUA onde se exploram os restos das riquezas minerais (pois os vegetais morreram e as águas viraram urina)... Mas quem dá as cartas aqui é a Argentina, que controla tudo com "mano de fierro". A capital política é Brasília (que ninguém conhece, dizem que é lenda) mas a capital de fato é um troço chamado "Rio de San Pablo", uma megalópole fodida, miserável e decadente, lotada de mendigos de tudo quanto é canto do mundo, com bairros inteiros dominados por favelados, chineses, indus, senegaleses, militares das trocentas empresas de exploração e comércio, caçadores de recompensa e indigentes até de outros mundos. Se marcar tem alguns demônios perdidos por aí.

No meio desse pesadelo regado a sangue, bebida, tecnologia, prostituição eletrônica e funk carioca, há um homem chamado Idílio. Ele é um sucateiro meio louco de tanto beber a própria cachaça. Esse sucateiro pegou pra criar um menino de rua que achou nos esgotos ao lado de sua casa feita de latas de cerveja e carcaças de geladeiras. Esse menino meio que virou seu filho adotivo, aprendendo a consertar de tudo, enquanto lia gibis e mais gibis antigos, filmes em DVD e hologravações.

Por acidente, o falecido Idílio fica sabendo que vai rolar o lançamento da primeira nave-espacial capaz de efetuar um salto quântico. O velho era um hacker da antiga, um procurado pela Polícia Satânica e inimigo mortal de Lanna Lenox, a mais tenebrosa cafetina cyborg. Imaginando que seria sua chance de escapar, Idílio arquiteta um plano mirabolante de dar o fora do planeta e gozar seus últimos anos de vida nesse planeta misterioso. Porém, ele morre antes de concretizar seu intento, restando ao filho adotivo completar-lhe a tarefa.

Lucas passa a ser um "Solitário", um pária entre os párias, pois só com extrema violência e fúria sem limites é que poderá ao menos tentar invadir essa nave. O que não será fácil pois a danada foi construída por um conglomerado japonês vampírico.

No meio do caminho, Lucas encontra personagens estranhos, faz alianças com seres bizarros e fantásticos que tanto podem lhe ajudar, como lhe atrapalhar: Nahna, a mini-mulher, um nemalóide, Tardio, um satélite sucateado, etc.

Muito mais violento, pirado e demente que Mundos Sem Sol, o livro do Lucas é minha chance de criticar, ainda que metaforicamente, essa sociedade sórdida em que vivemos.

Adianto que neste livro teremos a participação especial de Kamiyama, o policial que apareceu em Mundos Sem Sol.

  

Série Mundos Obscuros

 

O Pedro, se você não sabe, é o personagem principal do grupo Elementais. E, portanto, é com ele que começo a série Mundos Obscuros.

Criado em 1979, o Pedro é um rapaz que vive em um Brasil imaginário, às vezes bucólico, às vezes estranho e surreal... Mas essencialmente habitado por toda uma vasta coleção de super-seres.

Pedro é um aluno relapso, preguiçoso e alienado que estuda na Escola Municipal 10 de Março onde seu destino parece ter virado ao contrário: ele encontra-se com três meninas das mais estranhas: Morganna Aimë, uma mestiça elfa de origem pirtuguesa que abandonou sua carreira de torturadora e executora de super-seres para reencontrar seu único amor de infância. Ou seja, ele. Vai vendo!

Kali-Khan, sua colega de classe, é uma japonesinha com poderes de metamorfose e que é a reencarnação de uma antiga deusa oriental, nascida na China. Kali deixou o Japão com a família para fugir das constantes invasões de monstros.

E Princesa: adotada como irmã de Pedro, é na verdade é uma fada assassinada furiosa e enlouquecida, que em seu mundo distante foi assassinada por seu irmão ganancioso. Princesa foi salva do inferno mental por Prahna (que aparece no livro do Mil Nomes) e encaminhada em direção a Pedro.

Elementais é a minha versão do universo dos RPGs, animes e filmes de fantasia, originando um texto repleto de humor, romantismo e situações estranhas. O Pedro é um pateta, a Kali é toda quietinha e meiga mas um demônio quando quer, Princesa é maluquinha mas está deixando Pedro meio enlouquecido e, claro, tem a Morganna, a única mulher sã na vida do cara.

Mas correndo por fora tem a irmã do Pedro, a Petra e o Lemac.

Lemac é um personagem derivativo dos Elementais: apaixonado por Princesa, após receber um dom místico muito doido, ele acaba sendo arremessado ao feudo onde crescera. Só que o feudo abriu falência e tudo foi destruído pela pilhagem dos muitos credores. A função do Lemac é ir buscar a si mesmo nessa história. Eu vou acabar fazendo esse livro mais por pressão da Marcia, ela gosta muito desse personagem!

A Petra é a irmã deficiente física do Pedro. Ela nasceu com asas de morcego no lugar dos braços e, apesar de sua deficiência, se destacou com vigor em suas tarefas.

Série Mundos de Luz


Começando esta série, o pai de todos, o fio condutor e maestro de toda a minha criação, o meu querido Mil Nomes.

O Mil Nomes foi criado a partir de uma série de influêcias: Marino Boy, o desenho animado Phantasmagoria, ainda contando com influências Espíritas, Umbandístcias, Junguianas e uma boa dose de mim mesmo (como cabe a uma boa obra, se a gente não se doar ao leitor, não haverá sinceridade e não havendo sinceridade, não há empatia verdadeira).

Neste primeiro livro, já devidamente finalizado e em fase de produção, eu conto as grandes descobertas de Hector, um menino que sofre um acidente violentíssimo e morre durante a queda de um jato de passageiros em sua rua. Hector é levado a um universo fantástico e metafísico em que vê as mentes das pessoas como se fossem planetas. Mas isso não é tudo.

Mil Nomes é amparado por Prahna, sua contra-parte feminina; ela é filha de L'os, o supremo manutentor da Humanidade e representa a Vida em seu processo criador e benevolente.

Mil Nomes ainda conta com a ajuda (?) de Ka Lan, uma chinesinha e irmã de Prahna. Ka Lan representa a Morte e não tem quase nada de criadora, quanto mais de benevolente.

Ambas são suas esposas e fazem parte do Ternário Sagrado, uma união cósmica e espiritual que se estende por milhares e milhares de existências, acima e além de Tudo.

Outros personagens se juntam à trama mas não posso falar neles por enquanto. Maiores detalhes, acesse o site dele, uai! O link é ESTE AQUI!

Mil Nomes é, com certeza, meu trabalho mais ambicioso e mais complexo. Eu adoro todos os outros, me divirto demais com eles mas... O Mil Nomes é especial. Ele tomou-me uma considerável quantia de tempo e fosfato, bem como muitas anotações, das e vindas no texto (que os gringos chamam de "snow steps"). É uma aventura de um super-herói incomum que mistura sonhos, pesadelos, amor, ódio e reviravoltas "filosóficas" que muito me agradaram... E com certeza vai agradar você também.

Livros Diversos

A produção da ZéRoberto Press não para! Estes são os livros que faremos apos, ou durante, a finalização (ou não) dos livros aí de cima.

Sinta o drama!

Boris e Valdete: Estranhos Vampiros - todo mundo escreve sobre vampiros. Mas escrevem porcaria pra menininhas retardadas e lixo comercial ordinário. Então eu decidi mostrar o que são vampiros de verdade: um casal de vampiros nordestinos homossexuais acorda, digo, sai de sua reclusão "meditativa" (eles estavam de castigo mesmo) e encontram um mundo bastante mudado. Para detê-los, não sei prá que, o Departamento de Busca e Apreensão de Aberrações e Atrocidades do Vaticano chama seu Van Helsing de plantão mas... ele está preso por pornografia infantil. Daí precisam contratar 3 "voluntários" que faziam parte da lista de financiamento dos caras: um pastor evangélico demente, um Espírita homossexual e um pai-de-santo estelionatário. Será que esse grupo dará conta dos vampiros? E os vampiros? Vão aceitar a parada na boa e na moral? Sei lá, pô! Nem escrevi o livro ainda...!

A Garota Que Acordou Morta (Dead Teen, título alternativo, vai que algum gringo se interessa, né?) - uliana é uma bonita, sexy, metida, preguiçosa, superficial, funkeira e mimada pirralha de 16 anos. Ela mora com a mãe evangélica em um grande condomínio de prédios de classe média-baixa  pra lá de Osasco. Basicamente, Juliana não faz nada de útil de sua existência. Largou os estudos, dorme o dia todo e, de noite, durante a semana, passeia pela Internet e conversa com os "amigos" via MSN. Nos finais de semana fica pelo condomínio com outros amigos inúteis, conversando sobre bobagem e dançando das sete da noite às quatro da manhã. Ela tem uma amiga, chamada Lola, uma carioca maconheira que mora também num condomínio mas sofre de síndrome do pânico, só conhecendo o mundo pelos torpedos do celular.

Então Juliana, um dia, ao levantar, descobre que está... morta. E agora? O que será dela? Existe maquiagem para defuntos?

É isso, turminha! Outros textos irão surgir e espero que você esteja por aqui para me acompanhar! Vai ser legal!

 

DEATHMAN

Clarence Williams.

Esse era o nome de um rapaz negro de 25 anos.

Baixo, meio obeso, morava em um apartamento que mais parecia um armário de vassouras. E era.
Sua "casa" era mesmo um armário embutido, grande, onde os antigos faxineiros do prédio guardavam vassouras, baldes, rolos e mais rolos de papeis higiênicos, produtos de limpeza, molhos de chaves velhas, canudos de papel-toalha e muitas outras coisas, algumas indefinidas..
No chão, um colchão velho, limpo e bem cuidado. Sem fronha ou travesseiro.
E sapatos.
Muitos, muitos pares de sapatos que Clarence foi juntando em suas caminhadas pelos prédios do condomínio Martin Luther King.
Ele só se interessou pelos pares de sapatos depois que achou no ferro-velho do Queens uma máquina de remendar sapatos.

Foi sorte. Clarence estava lá, no ferro-velho, e ajudou um estranho a descer a máquina de sua van. O homem não a queria mais porque seu pai, um sapateiro, havia morrido, e ele não tinha espaço ou desejo em manter aquela coisa.
Clarence pediu para ficar com ela e o homem lhe deu.
Com muita dificuldade e por horas a fio de trabalho pesado, Clarence a arrastou pelo bairro até o quarto andar de seu prédio, e com mais dificuldade ainda e sem ajuda de ninguém, só na base da tentativa e erro, virou sapateiro.
Mas os negócios não vão bem, porque a moda mudou. Agora, são os tênis que dominam. Todo mundo usa tênis, toda a vizinhança usa tênis. Os sapatos ficam guardados apenas para os cultos de domingo ou para os enterros.
E haviam muitos enterros ultimamente.

Não raramente, Clarence ganhava Donuts ou pratos de comida das pessoas do prédio. Todos o tratavam bem porque ele era uma boa pessoa. Alguns meninos o chamavam de "retardado", "idiota", "cretino". Mas Clarence não ligava, porque as outras pessoas em geral o tratavam bem.

Ele não entendia muita coisa. Não entendia porque a água subia pelos canos, porque as pessoas gritavam umas com as outras, porque havia muita coisa estranha acontecendo no condomínio, na praça em frente ao condomínio. Entender as coisas lhe era difícil.
Mas Clarence achava que todos eram iguais, porque todos tinham a mesma cor de pele: negros.
Ele era negro, seus vizinhos eram negros, todo mundo no condomínio era negro. Os brancos ficavam longe.

Só que de vez em quando um negro xingava o outro de negro. Clarence não entendia isso, pois um negro é um negro e ser chamado de negro não deveria ser uma ofensa. Mas era. E as vezes não era. Confuso...

Clarence ficava na praça redonda, construída no meio dos prédios, com seus amigos. Ele nem sempre se lembrava do nome deles mas estavam sempre rindo, felizes e alegres, ouvindo música no rádio. Antigamente as pessoas dançavam, hoje elas só ficam paradas conversando e "curtindo".

— Nada disso, Clarence! — dizia Papa Joe, balançando seus anéis dourados. — Você não pode fumar isso e nem cheirar a "branquinha".
— Todo mundo pode menos eu, Papa Joe. — protestava Clarence. — Porque eu não posso, Papa Joe?
— Porque você é gente boa, Clarence. Esses cretinos aí não estão com nada. Eles querem ficar doidões porque a vida deles é uma merda. Eles fumam e cheiram porque alivia a dor de viver na merda. E você não tem dor, têm, Clarence?
Clarence pensava e abria e fechava a mão esquerda.
— Não tenho dor nenhuma, Papa Joe. Minha cabeça dói as vezes porque eu penso demais.
Papa Joe era alto, forte, vestia sempre um terno branco com camisa vermelha e um chapéu branco com uma pena fina e vermelha também. Seu nariz era achatado e sem osso e estava sempre cercado de pessoas coloridas. Todas de tênis.
Papa Joe gostava de Clarence porque ele cuidava muito bem de seus sapatos, lustrando e polindo e as vezes trocando a sola.
Papa Joe era o melhor freguês de Clarence.

— Você precisa arrumar uma namorada, Clarence. — dizia Papa Joe. Clarence ria e rodava a cabeça, olhando para o chão. A sua volta, muita gente fumava, bebia e dançava. Clarence se lembrou de um livro em que mostrava uma tribo de africanos dançando. Lembrou e esqueceu.
— Eu não quero namorada, Papa Joe. Eu penso muito, não tenho tempo para namoradas.
— Você é que é feliz, Clarence. Você é que é feliz.

Papa Joe se levantou do banco da praça aonde estava sentado, quando Clarence o deteve.
— Não, não, não, Papa Joe. Não vai para lá, não, não.
— O que foi, preto? Ficou louco de vez? Eu vou ali falar com minha gata.
Clarence Insistiu.
— Papa Joe, não vai lá, Papa Joe. — e ficou na frente do homem.
Papa Joe ficou momentaniamente confuso. Ele normalmente empurraria quem lhe atrapalhasse mas o Clarence ele respeitava.

Foi o tempo certo.
O grupo onde estava a namorada de Papa Joe foi atacado por homens da SWAT, que sairam de detrás do muro aonde eles estavam de frente.
Os policiais começaram a chegar de todas as partes, batendo em todos, pisando nos que caíam, acendendo bombas e sirenes.

Um pandemônio se instalou na praça, com policiais para todos os lados e gente correndo, gritando, bombas explodindo, sangue, choro e palavrões.

Papa Joe correu no sentido contrário e Clarence foi atrás dele.
O traficante pulou caixas, passou por pessoas e conseguiu entrar num beco, parando numa bifurcação.
No que ele ia seguir para o caminho da direita, Clarence o segurou pela cintura.
— Por aí não, Papa Joe! Se você for por aí, você vai morrer.
O homem ia dar uma coronhada em Clarence mas o tempo que foi segurado foi o bastante para que quatro policiais armados com metralhadoras aparecessem no final da rua.
Papa Joe engoliu em seco e ouviu o que Clarence dizia:
— Por este lado. Segue por ali até o fim e vira a direita que você vai estar salvo.
Papa Joe seguiu mais este conselho mas, antes de sair correndo, perguntou:
— Como é que você sabia disso, seu preto?
O tempo virou melado enquanto Clarence dizia:
— Eu sei quando as pessoas vão morrer, Papa Joe. Não era para você morrer hoje, eu não deixei. Você é bom para mim. Vai embora, vai depressa, Papa Joe. Tem mais morte chegando.
Papa Joe viu o tempo desengordurar-se. Guardou sua arma, limpou o suor da testa e correu tão depressa quanto Deus lhe permitiria.
Clarence encostou-se em um canto e aguardou as explosões e a fumaça desaparecerem. Quem sabe ele encontraria algum par de sapato perdido na confusão.
Sapatos podem ser consertados. Tênis também, mas sapatos são bons.

Clarence fechava a porta de sua "casa", quando seu irmão Lawrence apareceu, saindo do elevador de portas de madeiras vermelhas espanadas.
Lawrence era mais magro que Clarence e morava nos subúrbios, lá em New Jersey. Clarence não se lembrava como o irmão foi morar lá, mas sabia que ele trabalhava com computadores.
Seu irmão o abraçou e o convidou para ir comer uma torta de maçã na lanchonete da Paulette.
— Você gosta de torta, não é, Clarence?
— Torta é bom! Torta com café... Posso pedir café, Lawrence?
— Pode sim, Clarence. Vamos indo que eu preciso falar com você. Tenho boas notícias.
— Eu ando devagar hoje, Lawrence.
— Ande como quiser. Não tem problema. Eu tenho boas notícias para você.
— Conte para mim, conte! — o irmão sorriu com a boca grande e os dentes brancos feito botões de sapatos.
— Tenho um quartinho para você morar com a gente no subúrbio. Você não precisa mais morar aqui sozinho.
Clarence sorriu.
— Você é um homem bom, Lawrence. Sempre foi muito bom para mim. Você sempre me ajudou, sempre.
— Então vou lhe ajudar de novo. Venha morar comigo e com minha esposa. Você vai poder brincar com meus filhos, vai poder passear nos bosques e vai para uma escola especial.
— Escola? Eu gosto de escola. — um sopro de esperança passou pela mente nublada de Clarence. Mas dispersou-se. — Não posso ir, Lawrence. Não posso ir, desculpa.
O irmão suspirou.
— Porque não?
Clarence olhou para o chão sujo do corredor e arrumou suas calças poídas.
— Porque eu tenho uma coisa importante para fazer.
— E que coisa seria essa que você não poderia fazer conosco, com sua família?
Clarence ia responder quando uma porta se abriu e uma menina de 5 anos passou.
Ela disse "Oi, Clarence."

Clarence a segurou pelo braço, a olhou firme e a deixou ir.

— Essa menina vai morrer quando fizer dezoito anos, porque fumou demais uma pedra branca. — disse ele, triste.
O irmão aparentemente já sabia da história.
— Papa Joe me contou do que você fez. Ele me telefonou... Então... É verdade mesmo? Que você vê quando as pessoas vão morrer?
Clarence acenou a cabeça com força.
— E você pode dizer quando vou morrer?
Clarence novamente a cabeça, com mais força.
— Nâo me diga. Vamos, vamos comer a torta.

Clarence comeu a torta depressa e com gulodice. O irmão ficou ao seu lado, fumando cigarro.
— Boa tarde, Clarence! — disse Paulette, a dona do lugar, uma mulher gorda que tinha os cabelos já começando a ficar brancos, contrastando com sua pele preta e lustrosa feito carvão novo. — Todo mundo está comentando o que você fez com Papa Joe. Você virou uma celebridade por aqui. Já até lhe deram um apelido. Lhe chamam de Deathman.
— Eu não sou celebridade. — encolheu-se, tímido e rindo aos soquinhos. — Celebridade aparece na televisão e no programa do David Letterman, eu não sou celebridade.
— Se ele é celebridade, porque ninguém vem perguntar quando vai morrer? — perguntou Lawrence, impaciente e com uma ponta de inveja.
— Isso é óbvio, meu bem! — respondeu Paulette. — Ninguém quer saber quando vai morrer.
— Você não quer saber quando vai morrer, Paulette?
— Eu... Naaah! Não preciso saber, Clarence. Sei que tenho uma vida boa e tenho Jesus no coração. Não preciso de mais nada, o Senhor é quem decide meu destino.
Clarence a olhou como se ela fosse um anjo.
— Você vai morrer com 96 anos, Paulette. Terá muitos netos e bisnetos.
A mulher balançou os ombros e sorriu.
Quando ela saiu da frente Clarence, ele viu um outro homem. E disse baixinho, apenas para seu irmão ouvir:
— Ele vai morrer quinta-feira. Ele vai pegar dinheiro com um homem forte e com diamante no dente e não vai conseguir pagar. O agiota vai matar ele.

Clarence olhou para um mapa rodoviário na parede. Era um desses mapas comuns, em que se mostram as rodovias principais, rodovias secundárias e rodovias menores por todo o Estado.
Ele se levantou e foi até o mapa, tocando-o com a palma da mão.
Clarence, que nem sempre entendia as coisas do mundo, entendeu aquele mapa.
Eram ruas e mais ruas, estradas e mais estradas, fios vermelhos, pretos, amarelos, pontilhados, com números, nomes, símbolos, retângulos e quadrados que representavam as veias do mundo.
Seu dedo indicador subiu e desceu pelos caminhos multi-divididos e, por onde passava, Clarence sentia os prédios, as casas e as pessoas que nele habitavam.
Homens, mulheres, crianças, velhos, jovens, moços, adultos, todos os seres humanos foram tocados por seus dedos.
Clarence sentiu cada pessoa viva em todo aquele mapa, e mais além dele, sabendo de sua existência, de suas vidas, do que fazem ou deixam de fazer, do que querem ou deixam de querer. Do que gostam, desgostam, temem, desejam, amam, odeiam e, especialmente, quando vão morrer.

— As pessoas vivem felizes, ou vivem triste, ou vivem dormindo acordadas. — murmurou Clarence para si mesmo. — O que as fazem ser diferentes são as decisões que ela tomam em suas vidas. Elas podem querer saber porquê as coisas são assim, ou porquê as coisas não saem direito. Ninguém quer saber direito, mas todo mundo tem medo de morrer, mesmo sabendo que morrer não se pode evitar.

Clarence tremeu, abrindo e fechando a mão esquerda como se batesse palma só com aquela mão.

— Eu entendo agora. Entendo. Porque eu parei no mundo.

"O que fazer para as pessoas serem felizes, Clarence?"

— Elas precisam decidir. Elas precisam decidir.

Os olhos de Clarence se voltaram para as pessoas na lanchonete. Ele viu, saindo de cada cabeça, milhares e milhares de fios coloridos, como um abajur que ele viu num filme, um abajur de fios luminosos que entravam e saiam do céu.
Eram as decisões.

As pessoas que decidiam errado, tinham os fios cortados. As pessoas que decidiam certo, também tinham seus fios cortados, mas eram fios brancos e coloridos de bolinhas como M&M´s. As pessoas que decidiam errado tinham fios pretos, sujos, que terminavam em poças de sangue.

Ao olhar para si, Clarence viu que ele não tinha fios.

Ele era o único homem livre, entre tantos prisioneiros dos fios de luz.

Clarence bateu os dedos.

A Menina Que Deus Queria Matar

Fosse durante o dia, fosse durante a noite, Deus estava de vigília.
E Seu único único objetivo era matar a menina em andrajos.

No prédio de apartamentos gigante morava uma família de aproximadamente cinco pessoas: o Pai, a Mãe, dois irmãos e a menina. Mas as relações familiares não importavam, pois as pessmas estavam sempre (se) mudando. Quase ninguém era o mesmo por muito tempo.
Só queriam sobreviver. Sobreviver era tudo. O resto não importava tanto assim.

A menina, todos sabiam, era odiada por Deus. E Ele tinha bons motivos para desejar destruí-la, sempre despejando do céu poderosas bolas de fogo, logo que a via: a menina era imortal e era, pior de tudo, a única mulher capaz de gerar filhos.

A humanidade havia desagradado Deus e ousado desafiar-Lhe: fizeram a guerra das guerras, a destruição das destruições, uma guerra de todo mundo contra todos. Uma guerra que durou milênios e milênios, gerações e gerações, uma guerra que tomou tanto tempo que ninguém se lembrava mais de quando Deus gostava deles... Se é que algum dia Deus gostara de alguém.

Notícias sem palavras diziam que o mundo inteiro estava destruído. Que só havia aridez, destruição, dor e violência terrível entre os parcos sobreviventes da guerra.
Assim, as pessoas do prédio gigante acharam que a melhor coisa a fazer era se manterem onde estavam. O prédio, mesmo que em escombros, lhes dava segurança, alimento e água em abundância, vindo dos estoques dispersos por toda parte. E as lideranças naturais e os pouquíssimos guerreiros e soldados deitaram suas armas e se juntaram à modorra de estar no gueto dos sobreviventes, cansados de lutar, cansados de pensar.

A menina não era nem odiada e nem amada. Havia uma necessidade especial em mante-la viva e a salvo, como se ela fosse a última canção ou o último brilho da inominável arrogância da efêmera e moribunda raça humana. Pois ela possuía um ventre fértil e fecundo.
E, para coroar os destinos de todos os que poderiam vir, a menina tinha a maior ofensa que Deus não poderia tolerar: ela era imortal.

Mas porque Deus não destruía tudo logo de uma vez, como seus filhos, os humanos, fizeram?, pensou alguém. E esse mesmo alguém respondeu: Por que Deus não se importa com quem está para morrer mas, sim, com quem Lhe desafia.

Deus era muito estúpido.

O problema é que a menina era esperta. Mesmo letárgica, pensando pouco e com dificuldade, comendo lixo e constantemente abanadonada e deprimida como todos, ela sabia de sua condição de imortal. E sabia que se Deus a visse, seria destruída. Seu instinto de sobrevivência era maior e sua inteligência era, acima de tudo, sua única arma, numa sociedade que descia e num deus porco e ciumento.

A menina evitava as janelas do prédio, já que Deus não conseguia ve-la além das paredes. Isso O deixava frustrado e, de vez em quando, Ele mandava uma chuva de bolas de fogo e meteoros contra o prédio. Tudo bem, o prédio era grande e suportara a fúria das armas dos homens de antigamente. Não era o poder mixuruca de Deus que o poria abaixo de vez.
Era uma questão de pensar com calma e de evitar as janelas.

Uma vez a menina olhou para o céu: era hora rosado, hora vermelho e vermelho-sangue quanto Deus estava atacando, tentando mata-la.
Lá fora, prédios e mais prédios em ruínas, decerto vazios, decerto ocupados, nunca soube ao certo já que ela nunca saira de onde estava. Se saiu, não sabia ao certo já que tudo lhe era igual.
As vezes a menina ouvia o som de crianças comuns brincando nos corredores ou no páteo do prédio, quilômetros abaixo de onde ela estava. Ela queria descer e brincar mas não podia. Deus não queria.

Sua família estava lhe olhando com carinho e compreensão. Não eram pessoas ruins. Sua mãe chorava o tempo todo. Chorou tanto, mas tanto, que seus olhos secaram e caíram. Mas isso não a impedia de chorar, escorrendo lágrimas finas as órbitas vazias.
Seu pai era quem lhe alimentava: cozinhava, lavava-lhe a roupa, brincava de cavalinho, corria de skate, passeavam de bicicleta pelos corredores e faziam teatrinho de bonecos. Todavia, ela não lembrava do rosto de seu pai. E, com o tempo, ele se foi esquecendo dela também.
Seus irmãos era qualquer um que lhe ajudava a ficar longe das janelas.

Uma vez a menina ficou debaixo de uma janela e deixou a luz do sol entrar e lhe aquecer os pés descalços. Foi gostoso!

Num período de tempo sem definição, a menina viu seus familiares irem embora para a Morte, ou apenas sumirem, arrastando-se pelos apartamentos ou voando para fora do prédio, achando que podiam voar para longe dali e se tornarem livres. Talvez pudessem. Talvez conseguissem.
Mas a menina não podia sair. Tinha que ficar.

Ficar e esperar pelo outro.

Um ataque de Deus veio sem aviso. Ele deve ter visto seu rabo-de-cavalo ou a ponta de seu vestido amarelo passar por uma janela panorâmica sem refletor de imagem.
Primeiro, havia um zunido baixo que aumentava de volume depressa. Então havia a explosão violenta, resultado do choque da bola de fogo contra o prédio. O fogo era divino: não matava pessoas, não destruía demais as coisas. Era um fogo com um destino certo, mas não certeiro.

A menina não tinha medo de Deus. Ela não tinha medo de nada. Apenas queria sobreviver e, portanto, tinha que achar um meio de enganar Deus.
Sozinha ela não poderia fazer isso, nem sua família era inteligente o bastante para lhe ajudar nesse enigma.
Ela tinha que esperar por ele.

Ele veio numa manhã em que ela bebia água ferruginosa da torneira de um quarto.
Ela sabia que era ele pois, como ela, ele era bonito, forte, inteligente e determinado.
Feliz e satisfeita, ela correu para ele e o abraçou.
Ele a abraçou de volta.

— Você vai me ajudar a enganar Deus? — perguntou ela, sorrindo com o rosto.
— Sim. Por você eu farei tudo.
— Então vamos pensar.

O homem e a menina imortais sentaram com os pés ao sol, bebendo água fresca e comendo frutas geladas, meditando em como deveriam derrotar Deus.
Ela pensou que deveria fazer sexo com ele e começar a perpetuar a espécie, o que seria importante para o mundo e muito gostoso para ela.
O homem disse que não, que deveriam esperar e não lançar a maldição para seus filhos e filhas não nascidos.
A menina o abraçou mais forte e o beijou com intensidade e paixão. Não apenas pelas suas palavras sábias mas pela preocupação que ele tinha com os que estavam por vir.

O tempo não existia mais. Apenas havia uma sucessão de dia e noite, de céu vermelho e céu preto avermelhado, uma sucessão de apartamentos, portas abertas e fechadas, janelas distantes e bem pertinho, maçanetas no chão, elevadores parados, calores, suores e beijos e abraços sensuais.
A menina imortal passava o tempo olhando para as coisas e penteando seus cabelos, andando de mãos dadas com o homem, e ele andava para lá e para cá, fumando cigarros finos e bebendo whisky suave, meditando e meditando.

Para a surpresa de ambos, a menina deu pulinhos, bateu palmas e dançou, puxando as pontas de seu vestido branco:
— Eu sei o que fazer! Eu sei o que fazer! — cantava ela, rodopiando e rodando.
O homem a ouviu atentamente, como um filho que recebe instruções de uma mãe amorosa. E disse que não pode deixar de sentir-se satisfeito com a inteligência da menina. Ela o abraçou novamente e o beijou.

O homem saiu do prédio com o corpo inerte da menina nos braços.
Seus longos cabelos negros estavam embraquecidos e ela estava vestida com roupas sujas, feias, estragadas e poídas.
Notava-se que ela sofrera muito, sofrera demais e que tal vida não lhe era mais querida.
Então, podia-se ver, ela morreu de desgosto.
O homem choramingava uma cantoria para o céu, erguendo o corpo pequeno e sem vida para cima e para baixo, enquanto andava pela praça esburacrada e em ruínas:

— O que será de mim? Ela morreu, o que será de mim agora? Oh, meu deus, o que será de mim? A esperança morreu, a esperança acabou. Deus venceu, Deus venceu, Deus venceu afinal!

Por um momento, Deus deve ter ficado em dúvida. Mas saber que sua inimiga estava destruída foi o suficiente para Lhe alegrar.
O céu vermelho esmoeceu-se e ficou claro. Depois foi azulando, azulando e ficou azul profundo como era antigamente.
O verde apareceu nas árvores e no mato pássaros cantavam, enquanto comiam bichinhos dos charcos.
O homem, mostrando-se entristecido como nunca mas impressionado com o poder de Deus quando Ele consegue o que quer, andou com o corpo da menina mais um pouco, em seu ritual de lamúria.
Então, devagar, foi voltando para dentro do prédio, pela mesma entrada em que saíra.
O homem deitou o corpo da menina num sofá velho e a cobriu com um lençou de renda.
A menina abriu os olhos, deu uma risada e disse:
— Conseguimos enganar Ele, não foi?

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© 2009 José Roberto Pereira.

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