Caverna do Dragão

O segredo desse desenho clássico é um só: dramas breves e que envolvem os personagens principais em sua eterna missão de tentar voltar para casa.

Caverna do Dragão não precisa de mais nada. Só precisou jogar 5 adolescente e um menino num mundo maluco, cheio de magia e aventuras sem sentido pra render uma boa diversão.

O que eu gosto neste desenho é a simbologia daquela unicórnia idiota: ela é um ser poderoso e mágico, mas que precisa evoluir para se tornar alguma coisa que prestes. Essa é a premissa de Caverna do Dragão: evolua pelo sofrimento que, conforme for, você será alguma coisa. Ou não.

 

Episódios (1ª Temporada - 1983/1984)

01 - Noite sem Amanhã (The Night Of No Tomorrow) - Megaupload: 01
02 - O Olho do Observador (Eye of the Beholder) - Megaupload: 01
03 - O Salão dos Ossos (The Hall Of Bones) - Megaupload: 01
04 - O Vale dos Unicórnios - Megaupload: 01
05 - Em Busca do Mestre dos Magos - Megaupload: 01
06 - A Bela e a Fera do Pântano - Megaupload: 01
07 - Prisão sem Muros - Megaupload: 01
08 - Servo do Mal - Megaupload: 01,02
09 - Procura do Guerreiro Esqueleto - Megaupload: 01,02
10 - O Jardim de Zinn - Megaupload: 01,02,03
11 - A Caixa - Megaupload: 01,02
12 - As Crianças Perdidas - Megaupload: 01,02
13 - As Mágicas Desastrosas de Presto - Megaupload: 01,02


Episódios (2ª Temporada - 1984/1985)

14 - O Sonho - MegaUpload: 01,02,03
15 - O Tesouro de Tardos - MegaUpload: 01,02,03
16 - A Cidade a Margem da Meia-Noite - MegaUpload: 01,02,03
17 - O Traidor - MegaUpload: 01,02,03
18 - O Dia do Mestre dos Magos Megaupload: 01
19 - A Última Ilusão - MegaUpload: 01,02,03
20 - O Cemitério dos Dragões - MegaUpload: 01,02,03
21 - O Filho do Astrólogo - MegaUpload: 01,02,03


Episódios (3ª Temporada - 1985)

22 - O Portal do Amanhecer Megaupload: 01
23 - A Cidadela das Sombras Megaupload: 01
24 - Apagando-se o Tempo Megaupload: 01
25 - A Odisséia do Décimo Segundo Talismã Megaupload: 01
26 - A Névoa da Escuridão Megaupload: 01
27 - A Caverna das Fadas Dragão Megaupload: 01


Extra do DVD (documentário especial)

Minusculo

Acho que esta é uma das melhores, mais divertidas e inteligentes série de animação dos últimos tempos. Eu baixei ela há alguns meses por acaso e muito me diverti com ela. Minhas filhas, então, alucinaram. Tanto que precisei comprar um outro DVD player e outra TV só pra elas, de tanto que adoraram esse desenho. Bom, este desenho e Tex Avery...

Enfim, Minusculo é uma espécie de transposição do universo dos cartoons da Warner para os... Insetos! As histórias se passam numa fazenda e tem paisagens lindas, situações malucas e, claro, é uma diversão sensacional.

Nem pense muito: baixe, assista e se divirta. Apenas tome cuidado que os episódios são muito curtos e tem uma musiquinha calma, que dá um bode...

Baixe direto nos links a seguir (use o programa JDownloader):

 

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BK Top Movies: Ikiru - 1952

Lá pelos anos 80, eu trabalhava no Banco Real, na gráfica onde se imprimiam os talões de cheques. Eu ganhava bem, tinha uma namoradinha legal, não precisava dar dinheiro em casa e, portanto, comprei aparelho de som, discos, fitas cassete, walkman, relógios... E um VHS Player Philco.

Nas locadoras da Liberdade (eu morava na Bela Vista, na rua em frente à Câmara Municipal), especialmente na Firefox, eu tinha acesso a centenas de títulos diferentes. Eu assistio muito mais filmes hoje, baixando pela Banda Larga e tenho muito mais acesso às coisas loucas.

Porém, foi na Firefox que eu aluguei um filme que me era, é e sempre será precioso: Ikiru.

Me lermbro com exatidão: fiquei alucinado quando achei a fita e corri pra assisti-la em casa. Pois, meses antes, no falecido Cine Niterói, também na Liberdade, eu assistira esse filme e já havia ficado escangalhado. Será que teria a mesma sensação, em casa, que tive no cinema?

Sim.

Ikiru é dirigido e roteirizado pelo sacrossanto Akira Kurosawa. Nele se conta a história de um velhote que está morto em vida. Um funcionário público cuja existência é meramente figurativa, uma sombra mesmo.

Porém, o personagem descobre que tem câncer no estômago e, portanto, tem poucos meses de vida. Transtornado com a bofetada, percebe que sua vida foi absurdamente em vão. Então, decide ajudar uma comunidade a construir uma pracinha para as crianças brincarem.

Ambientado no Japão do pós-guerra, é interessante como a direção do Kurosawa lembra muito os antigos filmes brasileiros da Vera Cruz: deficiências técnicas mas um brilhantismo de um roteiro sensacional, com atores convicentes e situações magníficas.

Por isso eu posso te garantir que este é um dos meus 10, ou 5, melhores filmes de todos os tempos. E com muita alegria e muita satisfação que eu o disponibilizo para seu download.

Baixe, assista e compre o DVD original (onde tiver, eu já vi em sebos) que esse filme é uma obra prima, sem dúvida.

DVDRip com AVI em download direto.

PARTE 1

PARTE 2

PARTE 3

PARTE 4

 

Os Relógios E Eu.

Eu deixo minha patroa (ainda mais) doida com minhas manias.

Eu adoro cacarecos eletrônicos. Telefones sem fio? Já tive uns 10. Walkmans? Dezenas! Aparelhos VHS? Milhares. Chaveiros, lanternas, controles-remoto, pense em alguma tralha eletrônica que com certeza eu já tive.

Eu vou fazendo assim: guardo dinheiro, pesquiso, pesquiso, reviro lojas, sites, converso com pessoas e, quando eu piscar, aparece um novo aparelho nas minhas mãos. A patroa não se conforma porque tudo vem pra mim muito fácil, muito rápido mesmo. E ela foi criada numa família grande e pobre, em que esses meus luxos eram raros. Tanto que quem lhe deu seu primeiro walkman fui eu.

Mas cá entre nós, meu grande tesão entre esses bagulhos todos, são os relógios.

Eu sou alucinado de pedra por relógios! Mas não é qualquer relógio, não. Tem que ser de três marcas especiais: Casio, Citizen, Seiko (que eu não tenho nenhum, mas terei). Sim, tudo japonês.

A explicação que te apresento é que, quando eu era pequeno, tipo assim uns 5 anos, eu só via os braços dos adultos. Eu andava pra lá e pra cá, minha família era bastante festeira, sempre tinha gente lá em casa mas meu campo de visão era limitado aos pulsos. Tinha também as bundas mas vamos ficar onde interessa...

Por isso, eu via o braço do pessoal e ficava medindo os relógios deles.

Eu me lembro dos relógios dos anos 70 com precisão das memórias alegres. Haviam relógios insípidos, de marcas desconhecidas, caixinhas de metal dourado sem graça mas que a gente ia no relojoeiro pegar o vidro e fazer futebol e botão. Eu detestava futebol de botão mas gostava de colecionar os vidros. Havia relógios femininos pequenos, delicados, que se eu me aproximasse, ganhava uma bronca. Os relógios femininos, portanto, ficavam longe de mim. Já os relógios masculinos eram bem acessíveis pois, suspeito, era o jeito dos homens me mostrar uma parte de seus mundos e de como construir minha personalidade através das coisas. Especialmente os óculos Ray-Ban mas não posso usa-los porque sou míope e padeço de astigmatismo.

Meu pai e meu irmão eram ávidos consumidores de relógios. Meu irmão era pior, vivia trocando de relógio. Ele tinha um Tecnos imenso, um cebolão (era assim que eles chamavam esses relógios), todo colorido em tons verde-azulados, calendário deslizante com dia da semana em espanho, uma peça pesada que mais parecia um carrilhão no braço. Foi graças ao meu irmão que conheci a alegria de brincar com relógios populares. Já meu pai tinha um gosto mais sofisticado. Possuía relógios europeus, alguns dourados, outros de marcas obscuras mas comuns. O relógio querido dele era um de bolso, de ouro, que ficava no cofre da família, no fundo do armário. Era lindo mas não me chamava a atenção. Do jeito que minha irmã é perdulária, esse relógio decerto foi penhorado prego faz tempo...

Meu pai me deu, quando fiz 8 anos, meu primeiro relógio: um clássico Mickey Mouse apontando as horas com os braços. Mas o relógio pifou pois disparava os braços, rodando o ratinho feito doido! Foi aí que eu soube que, dentro dos relógios, havia uma âncora!

Nos anos 80, minha família e eu viajávamos para o Paraguay, numa época em que era legal ir até lá. Com alguns trocados no bolso, podíamos comprar trocentas porcarias. E eu, claro, comprei meu relógio Casio (eu já havia conhecido esse modelo pelas mãos de meu amigo Igor, aquele citado no texto anterior). Meu grande barato eram as canetas-relógio, uma sensação, uma verdadeira febre entre a molecada. Elas vinham em pacotes plásticos que nem os relógios chineses de hoje. A diferença é que o relógio japonês mais vagabundo tinha muito mais qualidade que os chineses de hoje...

Fiquei mais velho, arrumei emprego e comecei a montar minha coleção de relógios. Mas eu era desleixado e os destruía mais depressa do que os guardava.

Tempo veio, tempo foi, meu irmão morreu. Mas foi enterrado com um relógio Citizen dos anos 70 que adorava. Meu pai também morreu mas não foi enterrado com relógio algum pois morreu aos poucos, secando que nem árvore doente.

Com o falecimento deles dois, e minha saída de cena, os relógios classudos e estilosos sumiram lentamente da minha família. Foram sendo substituídos por esses relógios chinesinhos, horríveis, funcionais mas sem vida, sem estilo, sem alma. Vejo meu sobrinho, de 19 anos, alto e magrelo, usando um relógio qualquer, sem se importar com a máquina. Quebrou? Mamãe dá 10 contos e ele compra outro. Pra ele, o legal é celular! "Celular tem relógio, tio, pra que preciso colocar uma coisa no pulso?" diz ele, rindo que nem um estúpido.

É que, pra mim, ter relógios é dar continuidade a um legado. Um legado de "presença", estilo, responsabilidade. Meu pai e meu irmão eram homens. E todo homem precisa ter seu relógio, da mesma forma que precisa ter seu cinto, sapato, cueca, óculos escuros, terno, gravata, abotoaduras, lenço, aparelhos de barbear e, eventualmente, um chapéu. Andar na "estica", como se dizia.

O relógio compõem sua personalidade. Mostra quem você é e seu grau de preocupação com o nosso único feitor: o tempo. Mas não precisamos desdenhar do tempo ou trata-lo com banalidade. O tempo é tradicional e o relógio corôa essa tradicionalidade, ao mesmo tempo que honra e respeita a memória dos antepassados.

Minha família, meu pai e meu irmão, me são honrados através de meus relógios.

Tenho um Casio com calculadora, outro Casio Fishing, Casio Edifice (adoro sua cor azul mas é o meu relógio mais pesado), um Casio FilmWatch (ele é tão leve que nem sinto nada quando o uso), meu querido Casio MP-1 (o primeiro relógio que reproduz MP3; só cabe 32 mega e nem ouço nada nele. Mas quando saiu, custava mais de 2.000 reais. Paguei 100 contos! O manual dele parece uma lista telefônica! Fora que ele tem um "docking bay" pra encaixar-lo e deixar carregando! É um relógio grande, feio, desajeitado mas uma preciosidade!)

E este é meu relógio mais precioso. Meu querido Citizen Promaster que me custou uma nota boa. Mas, quando uso, me sinto parte de um legado de hombridade, estilo e saudade:

 

Capitalism A Love Story

Michael Moore é um demagogo.

Ele parte de um pressuposto bastante pessoal, e com um belo fundamento político, pra apontar os grandes vilões do mundo (leia-se USA). No documentário "Capitalism: A Love Story", ele prossegue nessa demagogia.

Desta vez, entre outras coisas, ele desanda a sentar porrada na administração Bush e suas nefasta relação com os mega-bancos e de que maneira o povo estadunidense foi induzido a endividar-se.

De qualquer forma, o Moore faz uma espécie de documentário "gonzo". Ele seleciona assuntos, junta tudo e cria um mosaico muito bem direcionado a sua filosofia socialista. O que não sou nada contra pois, apesar de ser apolítico, tenho grande simpatia pelo socialismo.

O que complica é que é preciso ficar esperto com o Moore. Ele segue uma agenda política e isso é complicado quando se pretende partir pro denuncismo.

A vantagem é que o Moore é um cara do bem. Ele chuta firme, chuta legal e dá a cara pra bater. Bem diferente do Datena, por exemplo, um dos piores e mais baixos demagogos do Brasil, que apoia senador contra a "pedofilia", enquanto o dono de sua emissora enriquece as custas da ignorância alheia... Ao mesmo tempo em que planta desespero na população.

O Moore tem seus pecados. Mas pelo menos a gente percebe que ele segue um bem comum, um bem maior, um ideal democrático e que visa tentar...

Sei lá, fazer as pessoas pelo menos pensarem.

O Datena não. Datena, Ratinho, o falecido e asqueroso Alborguetti e todos os demais clones do igualmente torpe Jacinto Figueira Junior, inspiram o desespero apenas pra faturar com a audiência.

Moore tem um objetivo maior, coisa que nenhum desses pulhas tem.

A cena da vitória do Obama é sensacional. Pra vocês, brancos, não significa nada. Mas para os negros... É foda, o país mais racista do mundo elegendo um negro...

Enfim, Moore fez um excelente "shockumentary" ou um documentário "gonzo". Que vale a pena ser assistido.

TORRESMO

Europa Ou Etiópia?

Recentemente, numa discussão em um site de quadrinhos, e foi levantada a questão sobre a ética nas editoras: eu encaminhei ao Manoel, editor da revista Mundo dos Super-Heróis, uma solicitação de contato com seu (dele) editor. Pois eu queria lhes mostrar um projeto.

O Manoel, gentilmente, me passou a seu chefe, ao qual encaminhei o projeto...

Que deu em nada. Pois o chefe dele entendeu tudo errado, sua ganância falou mais alto e deu no que deu. Isso foi há alguns anos.

Passou.

Usando de meu direito absolutamente democrático, fiz uma crítica à revista Mundo dos Super-Heróis. Por esta dar espaço a um pisilânime que, entre outros tantos absurdos, alegou que fora plagiado por Stan Lee... E me acusou de ser "pedófilo".

Para minha surpresa, o Manoel apareceu no tópico com um único interesse: defender seu "redator" e, claro, tentar me desancar, usando o lance do projeto no qual ele intercedeu.

São nessas situações em que as pessoas se mostram como realmente são.

O Manoel primeiro age de maneira absolutamente anti-profissional. Pois ele usa de uma informação interna para tentar desancar um crítico. O que por si só já jogaria no lixo qualquer palavra vinda desse senhor, pois ele já demonstrou não ter caráter.

Mas tal "pessoa" colocada na editoria Editora Europa nada mais demonstra a consequência, o reflexo do pensamento do dono da empresa que está lá em cima. Nenhuma empresa (de comunicação) contrata um editor que pense ou aja de maneira diferente, ou que não esteja emparelhada, do pensamento de seus proprietários ou idealizadores. Pois tal pessoa haverá de tratar de seus produtos, e portanto se expressar, de acordo com a personalidade do dono da empresa.

O Manoel apenas agiu conforme seu chefe: achou que seria justo "jogar na cara" de alguém que dele precisou, quando esse alguém precisou dele e que, depois, o criticou. Pode ver que o chefe dele pensa assim, que o dono da empresa pensa, que o "redator" mentiroso e sem caráter que ele contratou também pensa assim e que, portanto, os leitores da Mundo dos Super-Heróis também pensa assim...

Ou não?

Muita gente desconhece como são feitas as revistas. Mais ainda, não faz idéia de como é que pensa e age os caras que as produzem. Ao saberem dessas pinimbas o leitor que ético, honesto, que tem valores pessoais corretos, pode simplesmente dizer "não" a isso tudo...

E deixar de comprar os produtos dos caras.

Sem querer comparar nada com ninguém, e nem acusar quem quer que seja, eu tenho um amigo que possui uma frase lapidar: "filho da puta atrai filho da puta".

Você é filho da puta?

Zé Roberto E Akemi

Qualquer semelhança com o autor deste site ou com qualquer pessoa viva ou morta, é mera coincidência

 

Quando eu fiz 23 anos, passei num concurso (melhor seria dizer sorteio) da Prefeitura de São Paulo. Virei escriturário. Meus pais aplaudiram minha conquista, pois o sonho de todo brasileiro é ser funcionário público, socializando o trabalho e nivelando a todos na qualidade de filhos do Pai Estado. Somos todos aspirantes a socialistas.

Fui designado (bonita palavra, a poesia da burocracia) para trabalhar na Secretaria Municipal da Habitação, no prédio Martinelli, ali na esquina da rua São João com rua São Bento. Mas antes, a municipalidade exigia a comprovação de que eu estava qualificado (que eu prestava) para o trabalho. Portanto, eu tinha que ser examinado física e mentalmente.

Depois de passar pelo moedor de carne dos "exames pré-admissionais", depois de enfrentar dias e noites de filas, pilhas e mais pilhas de papéis (o papel é o sangue da Prefeitura) e ter que lidar com toda sorte de funcionária e atendente feia, mal amada e de mal com deus e o mundo...

Me deram o papel. Tudo é papel na Pregeitura. Especialmente os sangues das pessoas.

Peguei meu papel, chamado de “guia de encaminhamento admissional”, e sai do desumano DRH (Departamento de Recursos Humanos, não é por nada que ele fica numa rua em frente ao Cemitério da Consolação) em direção a minha "unidade de lotação". O Martinelli.

Elevadores lotados, não deu outra: subi escadas, desci escadas, entrei em salas, saí de salas, procurei, revirei, andei, cochilei, envelheci, cutuquei os dentes, cocei o pé, até que achei o “departamento”. Pois o papel me mandava ao departamento, então tive que obedecer o papel.

Falei com alguém, me passaram para outro alguém (que estava mais para alguma coisa do que para alguém) e, depois de pular daqui para lá...

Pronto.

Me apontaram e me deram uma escrivaninha grande, antiga, pesada, acho que era feita de metal misturado com madeira, surrada feito coração de mãe, ornamentada em seu tampo com carimbos e porta-carimbos, fichas e mais ficha em pilhas de... Isso, papéis.

Sentei e a cadeira apitou. Uma janela as minhas costas com vista para o prédio do Banespa. Esfreguei os pés: carpete verde, fino e gasto, numa sala de quase 100 metros quadrados de espaço praticamente vazio. Nos prédios lá fora, vultos nas janelas. Acho que eram pessoas.

Percebi, ou acho que percebi, não me lembro, que eu estava numa espécie de castigo: eu era um punk.

Não, eu não era punk de verdade. Só me vestia de preto, tinha cortado meu cabelo careca que nem meu pai, usava roupas velhas e surradas por preguiça... E eu usava coturno. Eu ainda tinha as cicatrizes em minha cara, especialmente no meu queixo, por causa da surra que tomei de umas meninas, mas acho que o coturno foi que me denunciou.

Eu não era punk, nem de rock eu gostava. Ouvia alguma coisa, conhecia algumas bandas, tinha discos que me davam ou eu comprava por impulso... Mas não gostava de rock, não. Eu gostava mesmo era de ouvir emissoras AM em um radinho de pilha deixado debaixo do travesseiro antes de dormir (presente de minha falecida avó, uma negra velha rústica que morava em Rincão, interior de São Paulo. O couro da capinha do rádio pegou o cheiro dela, uma mistura de mato com carvão). Eu gostava de ouvir ondas-curtas num rádio Transglobe, rádios alemãs, a BBC de Londres com sua programação em português; as vezes eu captava uma rádio árabe... Gostava de ouvir o resultado do futebol mas eu não torcia para time nenhum, gostava de marcar os pontos dos times que ghanhavam no pôster que vinha na revista Placar.

Acharam que na aparência eu era punk, então pronto. Eu era. E por isso, ninguém queria ficar na mesma sessão com um punk, mas não podiam me mandar embora. Daí, me deram o trabalho mais maçante do mundo (conferir fichas), me deixando no canto mais isolado do andar 23. Assim, os milhares de funcionários públicos, a nata da elite dos trabalhadores paulistanos, poderia andar sem ter que tropeçar neste trapo que vos escreve.

Aceitei.

 

Os meus dias de trabalho na Secretaria da Habitação escorriam que nem mel estragado: açucarado, fedido e estático. E eu era que nem uma garrafa de mel estragado, deixado no fundo do armário, largado, desprezado, esquecido. A mais baixa forma de vida assalariada. Tudo bem.

Eu subia ao "escritório" usando o elevador mais estourado e arrebentado, aquele lá do fundo, uma caixa de maçã mofada com luz de lâmpada piscante, com porta pantográfica montada de grades de guarda-chuvas. Era o elevador reservado aos fodidos na vida: faxineiros, empurradores de carrinhos de processos, contínuos, estagiários e punks. Isso, quando o bicho funcionava, me obrigando a passar metade do dia subindo as escadas com degraus de mármore e metal afundados pela maratona de pés esquecidos, e a outra metade descendo-as. Até que observei como os meus colegas faziam pra escapar da prisão: assinei o ponto para a semana inteira, depois assinei para o mês inteiro, semestre e ano todo... E, quando o elevador tinha suas crises renais e deixava de funcionar, eu poderia ir zanzar pela cidade ouvindo meu Aikoman ou ficava ali debaixo do Teatro Municipal, fumando cigarro e lendo gibis do Batman ou livros da coleção Argonauta (especialmente Ray Bradbury, Colin Wilson e Stanislaw Lew). Era uma boa vida.

Nos finais de semana eu levantava cedo, tomava um café comum e saia andando pela cidade, sem destino, pegando um ônibus aqui e depois outro e outro. Até bater a fome e ir comer num boteco ou posto de gasolina. Não era incomum eu dormir na rua mesmo e ir direto pro trabalho.

Eu era um sujeito magro, alto, nariz grande, um branco meio loiro, esquisito, diferente. Um flamingo preto. Ninguém na Prefeitura ia com minha cara. O Secretário da Habitação era um mito. Os diretores, lendas. A chefia, dizem que havia alguma, certamente me desprezava. Meus colegas, em sua maioria mulheres e velhinhos com bico-de-papagaio que arrastavam os pés com chinelos de dedos, falavam mal de mim pelas costas, aos cochichos, criticando minhas cicatrizes, minha roupa, meu coturno, entre goles de café e baforadas de cigarros Charm com a ponta marcada de batom Boca-Loca. Os seguranças me olhavam através.

Invisível, eu zanzava pelos corredores sem conhecer ninguém, passeando por entre arquivos e mais arquivos, privadas, tentando abrir portas trancadas para sempre, olhava os entalhes das paredes, verificava os canos dos alarmes, os ladrilhos dos banheiros, a massa dos vidros, até contei quantas torneiras haviam nos banheiros. Depois, eu ia para minha sala, empurrava as fichas para um lado, fazia café numa espiriteira elétrica, ligava meu rádio de ondas curtas vermelho Aiwa e ficava ouvindo emissoras de outros países, enquanto carimbava páginas de processos que alguém deixou em minha mesa. Processos de “oficialização e denominação de logradouros públicos”. Para dar nome às ruas.

Eu usava as fichas para conferir se os nomes das ruas estavam catalogadas no banco de dados. Se não estivesse, eu ia até numa parede de armários de ferro do fundo do andar e pegava mais fichas, até que o nome aparecesse e fosse confirmado. As vezes eu ficava meio louco de tédio e saia escrevendo qualquer merda nas fichas. Tem muita rua da cidade que ficou com nome estranho por minha causa. (pode ver: ha uma rua com meu nome). Não sei como, mas as fichas estavam sendo renovadas por alguém, como se eu fosse um prisioneiro e as fichas fossem minha ração.

Eu não precisava de relógio, apesar de ter um no pulso, um Casio 50 músicas que comprei na Galeria Pagé; o sol entrava pelas janelas grandes a minha esquerda e eu media a passagem do tempo por ele: quando batesse na tomada dourada sem tampa, enfiada no chão, era meio-dia. Quando chegasse ao pé de minha mesa, era hora do café. Quando chegasse na metade da mesa, era hora de ir embora. Quando chovia... Tanto faz, eu não ia trabalhar e ficava em casa, dormindo, comendo pipoca ou vendo TV.

O único ser vivo na "minha" sala era uma samambaia. Ficava ali, naquele canto. Seca e meio morta, ela se recusava a crescer, por mais que eu colocasse água em seu vaso. Parecia uma planta que cometera suicídio, se enforcando em três correntes prateadas. Um dia ela me encheu o saco e a joguei pela janela. Senti-me um verdadeiro rebelde!

Uma vez em que entrei no Martinelli e trabalhei normalmente. No final do dia eu percebi, na folhinha da mesa, que era feriado prolongado.

Veio o Natal e rolou a tradicional festa de confraternização do prédio: soltaram rojões, compraram bolos, salgadinhos, balões, chuva de papel picado, refrigerantes, amigo-secreto, e todos os funcionários do alto escalão foram para a cobertura do Martinelli comemorar. Os menores, foram dispensados mais cedo e viajaram para fora da cidade ou foram comprar coisas para as festas. Só eu fiquei em minha sala, batendo carimbo e colocando números nas páginas dos processos. Para não fazer feio, bebi água gelada e chupei uma bala de morango. Natal!

 

Na semana seguinte, enquanto eu fazia os cálculos de quantos anos me faltavam pra me aposentar (cerca de 60) Akemi bateu na minha porta. Bateu numas, pois não há porta no meu escritório presídio.

Eu meço um metro e oitenta de altura. Sandra tinha um metro e meio, no máximo. Um toquinho, batia aqui em mim. Veio ela com pastas abraçadas em si, olhando para tudo quanto é lado, medindo a sala, eu mesmo, a papelada que eu achava ser minha... Mas era menos minha que eu.

"Dá licença?"

— Hm?

"Eu vim trabalhar".

— Hm???

"Aqui é o Departamento Cadastro Setorial 32-A, não é?"

— Hm.

"O senhor é o seu Zé Roberto?"

— Hm.

"Eu sou a nova estagiária. Aqui."

— Hm!

E me deu um papel, o papel dela, o "memorando de encaminhamento", antigo conhecido meu. No memorando dizia o seu horário, de onde fora encaminhada, seu registro funcional (o número dela na Prefeitura), seu nome (Sandra Akemi Kobayashi, não sei porque eu acabei de pensar em cerveja. O sobrenome dela sempre me inspirava cerveja), e cargo: estagiária de arquitetura.

Sandra era toda pequena. Pequena na estatura, pequena no corte de cabelo, pequena nos pés, pequena nas mãos, pequena nos olhos, quadril, pernas e nos seios. Ela era uma boneca importada da China que andava e falava mais que cinco palavras. E vestia-se como boneca: vestido de seda javanesa azul, tailler, chapéu coco com uma fita vermelha, óculos de gatinho, corte chanel, anéis, pulseiras, salto alto. Era uma linda japonesa, um rosto redondo que nem bolacha de creme, dentes curtos, lábios com batons, bochechas macias, orelhas ligeiramente de abano. Uma gracinha de mini-mulher, um cupê de 8 cilindros.

Tava na cara: foi punida por ser rica, bonita e por ter estilo. Se existe uma coisa que funcionário público odeia mais que o (atual e qualquer) prefeito (menos os do passado porque "antigamente era bom") e o próprio salário, é alguém com estilo. Todos na Prefeitura devem ser medíocres, vazios, burros, deprimidos e neutros. Daí, jogaram a moça no poço, junto com o “monkey man”.

Eu estava afastado das mulheres, mergulhado em meu mundo lúdico e em constante pausa, bancado pelo "erário público". Não sentia desejo sexual, nem interesse por elas, quanto mais por qualquer coisa. Eu era um calmo zumbi. Um feliz (?) zumbificado. Por isso não percebi, a princípio, que, diante de mim, bem ali, segurando suas pastas e me olhando com cara de impaciente curiosidade...

Estava a mulher com quem eu sonhara em toda a minha vida. Um solzinho japonês, delicado, mimoso, ali, parada e batendo o pé, impaciente. Por isso eu não saí alucinado e nem fiquei com medo dela...

"Minha... Mesa...?"

Apontei para o sofá. Ela me olhou, desconfiada, desapontada. Percebi que usava aparelhos dentários.

"Não posso trabalhar ali", afirmou, de seu jeito choroso, quase implorando. Acho que ouvi um crack...

— Hm...

"Posso usar sua mesa para pôr minhas coisas?".

— Hm. — concordei. E assim ficamos, repartindo a mesa. Seu trabalho basicamente se consistia dela conferir o que eu fazia, já que não havia mais nada a ser feito.

Akemi (ela não gostava que eu a chamasse de Sandra e eu não queria me indispor) e eu começamos um estranho relacionamento: ela falava, eu ouvia.

Estava brava por ser desprezada pela Prefeitura. Era uma mulher pequena mas de grande orgulho, e sentia-se feliz por ter tido uma origem nobre (bisavô samurai), sem culpa de ser bem de vida.

Akemi obteve sua personalidade através de um caminho que me era estranho e bizarro: pela dignidade, pela honra e pela aplicação de valores diferentes dos meus. Valores complicados e estranhos, que até hoje tenho dificuldade de entender mas...

Ela se tornou a única pessoa real para mim.

Meu queixo doía de tanto que conversávamos. Desandamos a ser amigos de verdade quando ela descobriu meus gostos pessoais: eu colecionava mangás e ela os adorava! Dizia nomes e mais nomes quebra-lingua, desenhava símbolos na mesa, traduzia mangás e me falava da origem de cada autor. Sabia de tudo, entendia de tudo, falava de lugares que nunca conheci mas que, por sua paixão, me enchiam de saudade. Eu não me importa com o que ela dizia. Só queria que ela falasse.

Seu hálito tinha um cheiro adocicado, pessoal, macio.

Passamos a comprar coisas para lancharmos, pois ela adorava falar e comer e eu adorava ouvi-la e ve-la comer; sua voz era baixinha que nem ela, mas destemida, turrona e as vezes destemperada. Entre salgadinhos e latas de Coca-cola, ela me falava de sua vida de menina rica, sua casa de muitos quartos e salas vazios, falava de seus anéis, me falava dos antigos namorados japonesas, falava dos shoppings da Liberdade, de seus brinquedos pendurados na maleta de plástico laranja, de sua visita à Akihabara no Japão, dos trabalhos comprados da faculdade e que ajudavam a passar de estágio mais depressa.

Nosso entrosamento foi rápido porque eu sou fácil de ser levado no bico. Estou ali, de bobeira. E ela passou e me levou.

Minhas fichas e processos não tinham mais graça. Não tinham antes, agora morreram de vez. Eu queria ir trabalhar logo. O final de semana ficou lento sem ela, os dias com ela passavam rápido. Engordei, troquei de roupas, deixei o cabelo crescer. Usei perfumes, loções, colônias. Comprei sapatos, calças, camisas. Afinal, eu tinha bastante dinheiro pois não gastava meu salário da Prefeitura. Foi Akemi quem me aconselhou a cuidar mais de mim e eu a obedeci.

Um dia, ela veio conversando de um jeito todo cheio de dedos. Estranhei. Queria dizer algo mas estava encabulada, temerosa de me contrariar pois, segundo ela, "você é um cara estranho". Sim, eu era estranho.

Akemi abriu o jogo: me mostrou um pacotinho com uma erva cheirosa, meio verde amarronsada. Foi a primeira vez que gargalhei na frente dela, contagiando-a.

Com calma, visivelmente aliviada e com profissionalismo, ela me enrolou um cigarrinho de maconha e o acendeu com seu isqueiro de gatinho. Foi a melhor erva que fumei na vida. Sem ardor, sem queimação, sem tosse, cheirinho de Akemi. Ficamos sentados no sofá arrastado pra perto da janela, fumando baseado enrolado como se fosse um origami jamaicano, vendo passar no céu o sol de inverno. Ela tirou os sapatos italianos e deixou os dedos de fora, tomando sol.

(Nota: eu fumava maconha uma vez por mês, quando meu amigo Igor oferecia. Ele pegava em Diadema e de vez em quando eu saía para arrumar máquina de fliperama com ele e dava uns pegas e bebia uns rabos-de-galo. Era uma maconha horrível, fedorenta, uma desgraça. Igor morreu por overdose de cocaína e fiquei sem fornecedor por anos)

Akemi não ficava chapada de dar vexame. Ficava poética, mansa, falando de coisas que não me lembro, mas que eu prestava muita atenção e achava o máximo. Parecia uma senhora de idade, compenetrada em suas explicações, as unhas pintadas e coloridas, o branco dos olhos vermelhos.

Quando ela tinha folga na faculdade, ou no final do expediente da sexta-feira, fazíamos uma festinha. Não estávamos mais na fase dos adolescentes: eu comprava a garrafa de vinho Gato Preto e os salgadinhos de queijo e cebola. Ela trazia a maconha, os copos e guardanapos.

Ela lia em voz alta suas poesias, seus hai-kais, mostrava suas fotos de família desboatadas, me fazia origamis de passarinhos. Me falou de cineastas japonesas, especialmente seu ídolo, Kurosawa e seu filme favorito, Dersu Uzala. Seus olhos brilhavam quando ela citava a cena do velhinho tremendo de frio... Falou da vanguarda dos mangás, do comercialismo japonês, me falou de tecnologia, amizade, carinho e dedicação, animação em 3D e das borrachinhas coloridas em seus aparelhos dentários.

Abri meus olhos e Akemi havia tomado conta de meu canto público. A vida fora da Prefeitura estava virando irreal e o que eu tinha com ela era o real.

Caranguejos de papel dependurados em chaveiros, vasos de bonsai, pôsteres com cenas do Japão (o meu favorito era o Fujiyama, a avó dela tinha uma pequena propriedade ali perto), maquetes de prédios de seu curso, pilhas de mangás antigos (ela juntou a coleção dela com os meus), brinquedos de robôs que viravam carrinhos, um videogame em miniatura barulhento pra caramba, uma máquina de fazer chá verde, uma garrafa térmica para o chá verde (que aprendi a gostar), uma mini-TV colorida com fita-cassete, porta-sapatos, suas réguas a canetas nanquim na prancheta portátil e guarda-chuvas coloridos com a cara da Hello Kitty e sapinhos zoiudos dando tchau.

Akemi era meio mágica. Ela foi olhando para os canos do teto e achou um grande, preto, atrás dos canos menores e das luminárias. Foi vendo onde ele ia e descobriu um banheiro atrás das pilhas de arquivos-morto. Ao achar um cano de chuveiro, instalou uma ducha Lorenzetti. Fiquei impressionado! Mas ela sabia mexer com eletricidade pois seu pai era dono de uma rede de lojas de artigos elétricos. Só sobrou pra mim lavar o banheiro e tirar o limo dos ladrilhos.

Na tomada do fundo da sala, ela colocou um frigo-bar junto de minha espiriteira elétrica. Ao ver os dois aparelhos conectados na mesma tomada, achei que era hora.

No dia seguinte, assim que Akemi chegou (sempre chego mais cedo que ela), me levantei da mesa. Ela fez uma cara esquisita, colocando sua máscara de surpresa. Estava sem os aparelhos dentários.

Puxei-a de leve pelos ombros, suspirei fundo...

— Akemi-chan... Quer casar comigo?

Akemi aceitou meu pedido sem vacilar, me cobrando porque eu demorara tanto.

"Eu te amo." — dissemos ao mesmo tempo, feito dois bobos. Demos bastante risada, ficamos em silêncio um pouco. Devagarzinho a gente juntou as mãos, entrelaçamos os dedos num "abraço de mãos". Ela ficou na pontinha dos pés e eu me abaixei.

Nos beijamos de leve. Depois, com mais intensidade. Afobados, tiramos nossas roupas e ali mesmo aconteceu nossa lua-de-mel, com nossos corpos rolando entre fichas, processos, brinquedinhos e origamis.

Shaun The Sheep - A Woolly Good Time

Saindo do forno da rippagem, aí vai uma coletânia com seis episódios do sensacional carneiro Shaun, invenção dos malucos da produtora Aardman (criadora de Wallace & Gromit e o sensacional Rex The Hunt).

Pra quem não sabe, Shaun é um carneiro que vive sossegado junto de seu rebanho, mas sempre aprontando confusões enquanto problemas diversos são jogados em seu colo... Digo, cascos.

Excelente diversão, merece ser assistido pois não tem diálogos falados! Ou você acha que ovelha faça, mané?

TORRESMO

Planeta 51 - Guilherme Briggs Estupra Outro Filme

Fraquinha animação que basicamente é um filme de uma piada só: ao invés de aliens invadindo uma típica cidade dos EUA dos anos 50, temos um ser humano invadindo uma cidade alien típica dos anos 50.

Ou seja, uma besteirada e tremenda perda de tempo. Só valendo por uma ou outra piadinha besta e pelo ótimo trabalho da equipe de animadores, designers e "cenaristas".

Mas a minha bronca com este filme é com sua dublagem nacional: eu baixei uma versão aí de um moleque seboso em que ele misturou o DVDRip com o som da dublagem do filme exibido no Brasil. Baixei essa tralha pras minhas filhas, lógico, pois sou averso à dublagem brasileira.

E quem estava dublando o terrestre?

O nefasto Guilherme Briggs! Aquele lá, daquele lance!

Como não poderia deixar de ser, Briggs continua sendo o eterno Freakazoid: gritinhos histéricos, agudos ridículos, as mesmas bobagens de sempre e que ele acha que é "atuação".

Porém, na sua loucura egóica de sempre, Briggs agora deu de alterar o texto original: algumas vezes o astronauta chama seu amigo alien de "xuxu" (porque ele é verde, dãããã!) e, no final do filme, Briggs estupra o texto original, fazendo uma ridícula e absurda citação à "Jovem Guarda".

E que no filme, o humano, antes de ir embora, diz que gostou do estilo "anos 50" da cidade. Mas que o chamassem quando chegassem os "anos 60".

Briggs, na sua macaquice deslumbrada, trocou o texto e no lugar dos "anos 60", tascou a "Jovem Guarda". Visando, obviamente, trazer algum tipo de lembrança à audiência, puxar o saco de alguém ou seja lá o que for que se passa em sua mente "brilhante e complexa".

O que Briggs não sabe pois é um ignorante deslumbrado, é que o termo "Jovem Guarda" surgiu na TV Record em 1965, durante um programa de auditório. O filme em questão cita os anos 60 como um todo, sendo descabido, desproposital e completamente fora do contexto o camarada citar a "Jovem Guarda".

Eu fico pensando o que diabos se passa na cabeça das distribuidoras que não se ligam que esse cara adultera o texto original e insere seus maneirismos e baboseiras. Vai ver as distribuidoras querem mais é que se dane a qualidade de seus filmes... E o público é burro mesmo, então a tragédia está feita.

Enfim, o Briggs é, além de profundamente egomaníaco, desconhecedor do velho e bom Rock&Roll e um conhecido um monstro destruidor de filmes. É impressionante, onde esse camarda passa, sempre há alguma catástrofe.

Ele é uma espécie de Midas da bosta: botou a mão, cagou!

Enfim, o desenho nãoé lá grandes coisas. É uma espécie de Chicken Little mais bobo. Porém, graças ao Briggs, o que já era ruim, consegue ser pior ainda!

Fora com ele!

A Criação de Mil Nomes

O meu querido personagem Mil Nomes não nasceu do nada. Ele é resultado de um longo processo meditativo em que eu, acredite se quiser, me buscava conhecer. Eu ia atrás de minhas origens mesmo, o que me fez ser o que sou hoje. Quando dei por mim, estava imaginando como seria um personagem infantil mas sob a minha ótica. E, por ser um personagem infantil, obviamente que ele foi concebido a partir de várias influências de minha infância.

A primeira dela são os desenhos animados japoneses, os famosos animes.

Quando criança, eu era um menino muito introspectivo e sozinho, apesar de frequentar escola, ter vários e ser membro uma grande família. Mas eu não me sentia "pertencente" a tudo aquilo, sacou? Eu estava lá mas... não estava. As pessoas, o mundo, tudo me parecia esquisito e sem sentido. Até hoje eu tenho esse sentimento, de ser um "outsider", um estranho numa terra estranha. Quase tudo me causava aborrecimento, as pessoas eram complicadas, a família meio "selvagem"... E nos poucos lugares em que eu me sentia bem e "confortável" era ao assistir animes. Eu era fascinado pela produção japonesa e, sempre que passava algo dela TV, eu estava lá.

Os animes da época eram dinâmicos, cheios de ação e aventura, bem distante das produções estadunidenses, caretas e conservadoras. Não haviam sentimentos de "verdade", os personagens eram simplórios, eu quase nunca me identificava com eles (a não ser com Johnny Quest). E os desenhos gringos raramente apresentavam crianças como personagens principais. Esse era um fator determinante na criação de minha afeição e empatia pelas produções japonesas pois nessas a criançada usava armas de fogo, matava bandidos ou o herói abria o monstro no meio! Legal!

Ao mesmo tempo, eu adorava as músicas estranhas dos animes, os efeitos sonoros diferentes e o design dos personagens eram únicos. Não havia nada igual mesmo.

Um desses animes que me marcou prá caramba era Marine Boy. Exibido pelas TVs Tupi e Bandeirantes nos anos 70, neste anime mostrava-se um menino (herói!) que respirava debaixo da água e que, montado em seu golfinho e na companhia de uma sereia, auxiliavam a Patrulha Oceânica, responsável pela guarda dos oceanos contra diversos tipos de bandidos. Marine Boy tinha, ainda, a ajuda do pai, um cientista que lhe fornecia equipamentos especiais como, por exemplo, um bumerangue sônico, botas a jato e um chiclete que lhe permitia respirar na água. Quer coisa mais simples e bacana que isso? O Marine Boy era o herói perfeito pois não dúvidas, sem vacilos. Não que ele fosse infalível! Pelo contrário, ele estava debaixo d'água e poderia ficar sem respirar a qualquer momento! Essa tensão da história rolava escondida no roteiro e só bem depois eu fui perceber que esse fator foi preponderante para que eu me apegasse à coragem do personagem. E a trilha de abertura era esquisita prá caramba!

 

Outro desenho bastante marcante para mim foi Príncipe Planeta: Membro do Corpo da Paz Celestial, Príncipe Planeta é enviado à Terra para auxiliar na luta contra as forças do mal. Para tanto, ele poderia ser um menino comum como um super-guerreiro espacial, podendo se transformar ao usar a energia de seu medalhão cósmico. Diferente de Marine Boy, Príncipe Planeta estava sempre de cara feia (olha a foto dele aí!). Ele era um "bad boy" mas com bom coração. Sua transformação era na base do grito (o que eu adorava, parecia que ele seria pulverizado com tanto poder!) e ele não tinha lá muito os pudores de justiça e bondade como seu colega submarino.

Eu acho que o grande lance do Príncipe Planeta era sua vontade de impor a ordem nas coisas. Ele era um militarista mesmo, um soldadinho pertencente a um grande grupo e que, por ser de um planeta "superior", já sabia de antemão que a certeza estava com ele e ai de quem abrisse o bico prá reclamar! (risos)

Ele captou bem o espírito da época, ele ia prá cima do Mal e quem não concordasse virava farelo. Por muito tempo eu pensava que nem ele. Mas aí veio outro personagem...

...chamado Super Dínamo. O Super Dínamo foi fundamental para a concepção do Mil Nomes por vários motivos: era um menino comum que ganhou de uma entidade superior algumas armas mágicas que o possibilitavam ser um super-herói. Só que ele vivia dividido entre os dois mundos. Ele não podia equilibrar completamente sua missão de proteger as pessoas, ao mesmo tempo que tinha que ser um menino.

Os seus problemas era constantes: a mãe tirana, a irmã pentelha, o pai meio ausente, os colegas xaropes, a menininha que ele gostava mas não lhe dava bola, a escola que mal lhe ensinava... E mesmo os colegas do seu grupo de super-heróis também lhe causavam problemas. Sem falar que as pessoas que ele ajudava nem sempre correspondiam com gratidão aos seus atos de heroísmo! Eram mal agradecidas mesmo! Ou seja, ele praticamente só se ferrava e eu curtia muito quando ele tinha seus momentos de alegria, voando pela cidade, sozinho. O Super Dínamo me mostrou o lado mais humano dos super-heróis e todas as dificuldades e responsabilidades que haviam no exercício do heroísmo. Ele não era resolvido que nem o Marine Boy e nem destemido feito o Príncipe Planeta. Ele as vezes covarde e só apelava para a valentia quando não tinha outro jeito.

Esses três personagens foram as pedra fundamentais da criação de Mil Nomes pois, em todos os casos, eu gostei muito de todos eles, aprendi muito com eles e me identifiquem a transcendência, a abnegação e as dificuldades que eles tinham ao lidar com suas condições. Em cada um deles eu identificava meus próprios dramas e questionamentos, e foi uma consequência natural eu usar essa massa de idéias na criação do Mil Nomes.

Pode parecer pueril num primeiro olhar, mas a premissa de Marine Boy, Príncipe Planeta e Super Dínamo ficaram "rodando" em minha mente por anos e anos. Eu achava-os fascinantes pois, de um jeito ou de outro, eu via, neles, muito de mim. E, não posso negar, eles foram importantes na construção de meu auto-conhecimento.

Mas é importante deixar registrado que meu carinho por eles e a alegria que eles me proporcionaram em minha infância perduraram até hoje, quase 40 anos depois. Eles me faziam pensar ao mesmo tempo que me divertiam, uma coisa que o Scooby Doo, por exemplo, jamais fez.

Só que esses personagens tão queridos... Morreram. Acabaram. As séries foram canceladas, nenhuma TV se interessa em exibi-los e nunca sairão em DVD no Brasil. O tempo deles acabou e eles estão praticamente sem dono. Reduziram-se a mera sucata do universo "pop". Mas eles ainda existem em minha mente e existem no Mil Nomes... Pelo menos em essência.

Dessa forma, por gratidão e apreço, eu tinha que homenagea-los de alguma maneira, ou quem sabe seguir-lhes os passos em termos criativos. Eles inspiravam muitas idéias legais em minha imaginação... E fiquei pensando neles por muito tempo, sem que eu lhes conseguisse dar uma "cara".

Porém, enquanto eu rascunhava meus livros da série Elementais (um outro projeto que venho trabalhando há mais tempo que o Mil Nomes), e após desenvolver o personagem Pedro, aconteceu uma coisa.

Eu já havia criado o universo, digo, o "palco" de atuação dos Elementais. Já estava tudo definido. Foi um trabalho difícil para mim, era algo que eu nunca havia conseguido antes e fiquei orgulhoso por isso. Esse momento me estimulou a trabalhar com uma idéia pequenininha que andava "zumbindo" pela minha cabeça.

Era a idéia de fazer um personagem que fosse uma "derivação inspirativa" do Marine Boy, Príncipe Planeta e o Super-Dínamo. Havia essa sementinha correndo pela minha cabeça até que, sem maiores pretenções, criei o desenho do Mil Nomes (mesmo que, na época, ele não tivesse nome pois era apenas um conceito vago de super-herói mirim. Ele se chamava "Estelar").

Mas faltava o "start". Faltava o pano-de-fundo, o Universo para atuar, da mesma maneira que o Pedro já tinha.

Então, um dia, eu assisti, no canal Locomotion, atual Animax, um desenho animado que me serviu de inspiração definitiva para a criação do universo do Mil Nomes.

Era o desenho Phantasmagoria: 

 

Pronto! A peça se encaixou!

Estava tudo ali!

Tudo o que eu precisava veio de uma vez só! Criei, graças ao Phantasmagoria, todo o conceito do Supra-Mundo: mentes humanas ou não, vistas como pequenos planetas onde um personagem livre e completamente móvel poderia viver suas aventuras. Planetinhas, planetas e planetões, coisas estranhas, enfim, tudo deslanchou na minha cabeça de tal maneira que consigo ver cena a cena.

Criei, afinal, o palco para o Mil Nomes... E todos os demais universos paralelos em que a história se desenrola.

Como É Que Você Chegou Às Esposas do Mil Nomes?

Ah, isso é muito legal!

Eu já havia criado o Mil Nomes. Sabia que ele seria assim e assado. E já tinha seu universo, universos paralelos, etc. Beleza.

Mas faltava lhe dar um grupo de apoio, né? Alguns personagens secundários que lhe servissem de auxiliares no desenrolar da trama.

Só que eu não queria fazer aqueles personagens bobos e comuns de sempre. Nos animes, normalmente os personagens de apoio são meio que mal bolados, mal desenvolvidos mesmo, superficiais. Eu queria alguém que fosse especial, mais íntimo dele e que eu me sentisse confortável ao explorar todos os dramas que o Mil Nomes teria com eles. E já que eu estava livre prá criar o que bem entendesse, me dediquei a pensar na namoradinha dele, sua companheira. Afinal, o que é um mocinho sem uma mocinha, né?

Mas não pintava idéia nenhuma prá servir de base prá personagem aparecer.

Foi então que eu ouvi no rádio uma palestra do Gasparetto! Sim, eu ouço aquele menino serelepe! Discordo de muita coisa que ele diz, mas eu curto prá caramba sua retórica mística. E ele e engraçado! Um místico engraçado é uma coisa bastante rara.

Numa hora o Gasparetto estava falando sobre a Vida. E ele fala, fala, fala... Até que soltou uma boa: que a Vida é um "ser vivo".

Pronto! Foi como se eu tivesse recebido uma tijolada! Abriu-se a porta de esperança (risos) e a Prahna nasceu completinha. Os cabelos, o formato do corpo, as mãos, os olhos, o Terceiro Olho, até sua nave em forma de crisântemo veio assim, pum! De uma vez! Afinal, se o Mil Nomes já havia morrido, ele teria que encontrar alguns deuses, né? Daí a deusa da Vida e tals.

Mas beleza. Essa foi a Prahna.

Eu comecei a escrever direito a história do Mil Nomes. Era época em que havia caído aquele avião da TAM na cabeceira do aeroporto de Congonhas. Foi aquele fuá sempre, imprensa, TV, o escambau. Mas ai me lembrei de outro jato da TAM que havia caído no Jabaquara e que estava meio que esquecido. Achei que seria legal fazer com que o Mil Nomes tivesse um envolvimento com um acidente desse tipo.

Eu não sabia o que fazer com a idéia mas achei que ela mereceria um "investimento": fiz um laboratório, ou seja, fui até a rua onde caiu esse avião, tirei fotos, fiz um filminho, colecionei recortes de jornais, enfim, eu me "ambientei" com o acidente. Ficou legal, me deu um pedal ótimo prá história.

A medida que a história avançava, em dado momento eu me lembrei desta foto que tirei no lugar:

Tá vendo a parede atrás do muro, ali no meio da cena? Essa parede preta restou da queda do avião. Os caras não pintaram e nem reformaram nada, deixaram assim, um monumento silencioso à queda.

Eu olhei prá esse lugar um tempão e a foto ficou guardada em minha memória. Foi impressionante. Mas ao olhar para o contraste da parte chamuscada em relação ao céu azul da vida e a negritude da morte, tive a inspiração de fazer uma personagem que saisse desses dois limites. Que pudesse andar entre os extremos, que tivesse conhecido a Vida mas que tivesse mais intimidade com a Morte. E já que a Prahna era a Vida, o Mil Nomes precisava de alguém que pudesse lidar com a Morte. Foi dessa maçaroca de idéias, e de uma ilustração que a minha patroa fez, que nasceu a Ka Lan, a minha querida deusa da Morte.

Mas porque uma personagem chinesa, já que você gosta tanto do Japão?

Eu gosto do Japão, de fato. É minha segunda pátria (e muitas vezes a primeira, porque o Brasil é foda, só me dá desgosto). Mas eu sempre tive um carinho especial pela China, pela sua cultura, culinária e, claro, pelos os filmes de kung fu! E, recentemente, comecei a conversar pelo MSN com uma gentil chinesa, a Aimee. Conversa vai, conversa vem e quando percebi, já estava puxando papo com os chineses das lojas, super-mercados e de um boteco aqui perto de casa!

Ao mesmo tempo, a Ka Lan me abriu possibilidades muito legais de abordar assuntos como a Segunda Guerra e a participação japonesa na invasão de Hong Kong. Acho importante não ficar idolatrando o Japão como se ele fosse a coisa mais linda do mundo. Ele tem seus problemas, tem seus pecados e acho que a Ka Lan pode abrir as portas para essa minha abordagem.

Ao mesmo tempo, eu posso trabalhar com dois extremos de personalidades; a Prahna é toda meiga, boazinha, um doce de menina e apaixonada pelo Mil Nomes. A Ka Lan é o contrário, é grosseira, brava, cínica mas também adora ele. São opostos mesmo mas o fator que as une é o amor pelo Mil Nomes e tudo o que ele representa para elas.

E o que seria isso? Leia o livro prá saber, ora!

Mas Espere Aí! Elas São ESPOSAS do Mil Nomes??? Explica Isso!

Entenda uma coisa: eu não estou fazendo um livro convencional. Não estou criando personagens e situações convencionais. Eu sigo uma linha criativa bastante ousada, bastante diferente e que se baseia, também, nas premissas da criação japonesa onde a caretice não tem vez. Os japoneses meio que perderam isso mas tudo bem.

Eu tenho uma abordagem especial de como seria o "pós vida". Não me refiro aos ditames religiosos nem nada, eu explico a MINHA visão dentro do universo criativo em que estou trabalhando.

O Mil Nomes faz parte de uma guilda de deuses que se baseiam num relacionamento a três. No livro eu os chamo de Ternário Sagrado porque são entidades que simbolizam a Vida, a Morte e o Homem. Mas o Homem no sentido do descobrimento, do mistério, do crescimento individual e, claro, pelo exercício da força mais poderosa de todas dentro do universo deles: o amor.

Eu usei o termo "esposas" não no sentido deles estarem casados matrialmente, mas por comunharem de um amor entre si acima e além de toda e qualquer dúvida. Pois no pós-vida eu não acredito que o convencionalismo humano e as normas sociais possam ser aplicadas. Pois os personagens estão livres! Estão mortos! Eles gozam de uma liberdade completa pois, primeiro, são auto-suficientes. Não precisam prestar satisfações a ninguém, a nenhuma autoridade a não ser suas próprias Consciências. E esta Consciência acessa as diversas vidas passadas que eles tiveram e, dessa forma, eles não são capazes de cometerem os erros de seguirem normas que lhes prejudicaram ou impediram o amor fluir.

E, dentro da premissa da história e do "cargo" que os personagens possuem como seguidores de L'os, é natural que essa união seja consumada em forma de casamento mesmo.

Mas nem os deuses tem relacionamentos perfeitos pois, afinal de contas, eles ainda tem muito dos humanos. Mil Nomes, Prahna e Ka Lan tem sérios problemas de ordem pessoal e tem que acertar certas... Ahn... "Dificuldades de relacionamento" e seus fantasmas do passado que costuma voltar para lhes atormentar.

Eles são 3 indivíduos que, juntos, fazem uma unidade mágica, e essa unidade só se completa pela entrega e união de corações e mentes. Ou seja, estou me baseando em alguns preceitos "Espíritas" mas acrescentando a minha imaginação no meio.

Não tem nada obsceno, não se preocupe.

PREVISÃO DE LANÇAMENTO: MAIO DE 2010

Mil Nomes: ENTREGUE NA EDITORA - AGUARDANDO PUBLICAÇÃO

Texto - REVISADO E CONCLUÍDO

Ilustrações Internas - DIAGRAMADAS E CONCLUÍDAS

História em Quadrinhos - CONCLUÍDS E DIAGRAMADAS

Diagramação - CONCLUÍDA

Capa - CONCLUÍDA

Marcador de página - CONCLUÍDO

REPORTAGEM ESPECIAL - De Quem É O Raio Negro?

 

No ano de 1964, foi publicado pela GEP (Gráfica e Editora Penteado) aquele que seria chamado de "primeiro super-heró brasileiro". O personagem chamava-se Raio Negro e era desenhado por Gedeone Malagola. Ele era um enxerto de diversos

Desde então, muitos autores de HQs vem se utilizando do personagem em publicações esporádicas, usando da alegação que de o Gedeone Maladoga é o autêntico detentor dos Direito Autorais do personagem Raio Negro.

Será?

Em entrevista dada em 22/11/2008 NESTE FOTOLOG, Gedeone afirma que, ao trabalhar para a editora GEP (Gráfica e Editora Penteado):

"Cerca de 1 ano depois Jayme procurou o Gedeone novamente. A onda agora eram super-heróis com aventuras bem mais vibrantes que aquelas do Fantasma, o pique era outro! Ele pegou umas revistas importadas do Flash e do Lanterna-Verde e deu pro Gedeone: "Copia isso aí, esses personagens nunca vão ser lançados no Brasil!".

Rapidamente Gedeone inventou alguma coisa baseada nos gibis que o Jayme lhe passou, e incluiu na receita o Cometa, personagem dos anos 40 que ele lia no Suplemento Juvenil.
Estava criado o Raio Negro!"

Aqui podemos conferir claramente que a origem do Raio Negro foi nada mais que um enxerto de diversos outros personagens, acreditando-se que os mesmos nunca seriam publicados no Brasil. O que mostrou-se ser um equívoco, mais uma bela dose de oportunismo e falta de ética. Mas isso não importa.

Nesta situação, fica consignado, sem sombra de dúvida, que o Raio Negro foi feito a pedido da editora GEP. Que o mesmo desenhou o personagem de acordo com as exigências e solicitações da editora.

Fica, portanto, caracterizado um WORK FOR HIRE, uma modalidade de trabalho típica tanto na época quanto hoje em dia: a editora solicita ao prestador de serviço uma criação visando publica-la. E isso se concretizou, obviamente, com a publicação em eguida do gibi cuja capa ilustra este texto.

Dessa forma, podemos admitir que o personagem Raio Negro pertence à GEP.

A questão que levanto é que, posteriormente, Gedeone Malagola autorizou o uso do personagem por terceiros, delegando inclusive autorizações por escrito. Não nos consta, até o momento, que Gedeone tinha real e verdadeira autorização para isso. Lançando o personagem num "buraco negro" legal em que tentamos desvendar.

Hábitos e Costumes

O mercado de quadrinhos dos anos 60 não possuia lá muita ordem. Publicava-se praticamente qualquer coisa, muitas delas plágio. A própria GEP lançava suas edições piratas. Contudo, com a iminente chegada dos representantes legais das editoras dos EUA, a pirataria encerrou-se... Mas os vícios, pouco caso e a desorganização ainda imperavam.

A GEP não efetivou o registro do Raio Negro. Ao que tudo indica, Gedeone Malagola também não. Pois era hábito e mesmo um costume, na época, não se ter grandes interesses em regularizar as criações no que tanhe à posse das mesmas.

Mas ao vender seu trabalho à GEP, segundo nossa pesquisa, Gedeone abriu mão da posse do personagem. Afinal, um empregador o contratou para criar uma história de acordo com suas solicitações prévias. A GEP pediu para ele fazer assim, assado. É por razão que quem pagou pelo serviço e publicou a HQ se torna proprietário do texto e do consequente desenho que nela se manifestam. Pois não se pode desvincular um do outro, já que se trata de uma obra completa e que se encerra em si em sua objetividade. É o que acontece, aliás, atualmente, nos estúdios do Maurício de Souza: qualquer desenho, criação, texto, roteiro, o que for, pertence à empresa dele e não ao desenhista ou roteirista. É praxe de mercado.

Aqui começa o imbróglio:

Partamos da hipótese de que o Raio Negro seja originariamente da GEP, ao que tudo indica. Com o fechamento da empresa, todo seu passivo e passivo, inclusive obras literárias de todo tipo, fica no aguardo de um inventário que determinará se, no caso, o personagem ficará na posse de herdeiros ou devedores da empresa. Apesar de pesquisarmos arduamente, não tivemos acesso ao inventário da GEP mas, pela Legislação, quando da partilha dos bens, havendo constatação dos personagens, os mesmos passam a ser dos herdeiros ou quem de direito. O que pode levar-se a acreditar que o Malagola esteja agindo de má fé ao dizer-se dono de algo que não lhe pertence. Mas esta é só uma hipótese, não tiremos conclusões precipitadas.

Mas vamos supor que o Raio Negro seja realmente do Malagola. Digo, que haja uma consignação, um documento legal ou uma decisão judicial que o aponte como sendo proprietário do personagem. O que, convenhamos, tem tudo para ser verdade, já que o saudoso Malagola apresentou uma série de autorizações de uso do personagem a várias pessoas.

Uma vez que o Malagola faleceu, pela Lei, o personagem deve ir para o inventário de sua família. E, só após a devida partilha dos bens, é que ficará consignado quem passa a ser o dono do personagem. Mas enquanto isso não for feito, ninguém deveria estar utilizando-o. Pois o personagem estaria em litígio.

CONCLUSÃO

Não é do meu interesse acusar quem quer que seja. Porém, eu tenho a opinião de que o verdadeiro e único dono do Raio Negro é a Editora GEP... Ou seus respectivos representantes e herdeiros. Posso estar redondamente enganado, mas tenho a suspeita que o Gedeone agiu de má fé para com todos os que usam um personagem que não lhe pertence.

Porém, não sou inflexível: diante de uma documentação legal em que a GEP delega ao Malagola a posse e uso deste e dos demais personagem, tudo ficaria mais esclarecido... Mas, ainda assim, enquanto não houver o inventário do espólio do falecido, ninguém deveria estar usando o Raio Negro para propósitos comerciais, particulares, pessoais ou de divulgação.

E também não sou ingênuo. Não haverá o menor processo legal para tanto.

A questão que quero levantar é a imensa e descabida ingenuidade dos autores nacionais. Estão usando o personagem Raio Negro em produtos comerciais em diversas partes e, pela minha colocação, ninguém tem o direito de fazer isso.

Eu ma baseio no que dizia meu falecido e saudoso pai: "o que é seu, é seu. O que é dos outros, é dos outros". Enquanto a GEP, seus herdeiros ou os herdeiros do Malagola sejam devidamente tornados donos e proprietários do Raio Negro, e dos demais personagens de autoria do mesmo, com a devida comprovação jurídica, é preciso que se suspenda a utilização do mesmo nessas publicações. Até que se tenha uma devida comprovação de quem é realmente dono!

O mercado de HQs nacional demonstra ser, há muito tempo, de um amadorismo a toda prova. Há muito achismo, muita suposição e mesmo a passagem de "autorizações" que se mostram de origem duvidosa e de aplicação temerária.

Se quisermos realmente moralizar e tornar nosso mercado justo e comercialmente atraente para os investidores, será preciso deixar de lado essas práticas amadoras de usar personagens que, até comprovação legal, não tem a devida e justa autorização. É preciso deixar de lado a paxonite aguda e a postura de fã para começarmos a pensar e agir de maneira a não prejudicar o Direito de quem quer que seja.

Manter uma atitude de desdém ou de desconhecimento da Legislação, se baseando apenas no famoso "papo de boca" é um dos muitos pontos que prejudicam não só o autor nacional mas toda a já parca estrutura de produção de HQs. Que sempre foi calcada no desconhecimento da Lei mas, ultimamente, também vem pisando na Razão e no profissionalismo.

Já não basta nosso autor não ter visão comercial, não ter formação literária e técnica adequada, não ter como foco o leitor como um todo, ainda precisamos nos apoderar de personagens que estão num verdadeiro "limbo" legal? Tudo em nome de que? De homenagens vazias e de louvações sem sentido?

Louve-se! Que se façam homenagens! Mas que se obedeça a ÉTICA acima de tudo. Do contrário estaremos eternamente chafurdando na lama da incompetência e culpando estadunideses, japoneses, europeus, editores e leitores.

O fracasso é só nosso. Pois pensamos sempre em termos amadores.

Sejamos adultos.

 

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O mercado editorial brasileiro é nojeeeento!

De um lado temos livros comerciais que vendem muito, e livros eruditos que vendem pouco...
Mas são exatamente esses tais eruditos que acabam sendo o objetivo indireto dos aspirantes a escritores!

Todo mundo quer ser um novo Machado de Assis.
Todo mundo quer ser uma Cora Coralina, um Drummont, um urbanóide cabeça que lê Kierkegaard e Baudelaire, falando de si e de seus dramas burgueses, fazendo poesia cheirando a carne de panela com vinho...

Mas ninguém quer escrever sobre mortos-vivos.
Ou vampiros.
Samurais, cangaceiros, super-heróis, policiais e bandidos, bruxos e magos, piratas? De jeito nenhum!

Esse é o grande absurdo do autor nacional e das editoras: não se escreve temas comerciais, daí as editoras não publicam e puxam produtos licenciados!

Ora, se as editoras QUEREM livros comerciais, se o público GOSTA de livros comerciais, se o mercado mundial é sustentado por esses livros, por que não escreve-los?????
Porque nosso autor tem nojinho!
Ele despreza a literatura pulp porque quer ser um metido! Um bosta dum arrogante que sonha em ser membro da Academia Brasileira de Letras...
Sendo que ele foi criado por Tio Patinhas, Mickey, Cavaleiros do Zodíaco e X-men!

Ou quer ser um mago cabalístico que estuda as forças do universo, quando o leitor quer fazer macumbinha prá ganhar dinheiro ou trazer o namorado de volta!

Mesmo na poesia, não existe livro de poeta engraçado! Bem humorado, cínico, sarcástico, crítico. É tudo sobre amooor, amooor...

Enfim, nosso mercado poderia ser muitíssimo maior SE OS AUTORES NACIONAIS FALASSEM SOBRE O QUE O LEITOR QUER LER!

Se a gente não fala, vem o gringo e fala, ganha seu dinheiro e faz o leitor e a editora felizes.

Por exemplo, PORNOGRAFIA!

O leitor comum adora pornografia!
Existem centenas de milhares de sex-shops que vendem brinquedos para adultos.
Mas não tem UMA editora que faça livros com novelas ou contos pornôs.
Quando tem, é lixo.

Policial!
Na editora onde trabalho o grande sucesso de vendas é um livro sobre a Polícia Federal. Já vai prá terceira edição, vendeu que nem gasolina antes do reajuste.

"Ah, mas eu não quero fazer livro desse tipo."
Tudo bem, é seu direito.
Porém, NINGUÉM quer fazer livros comerciais... Mas quer vender, né? Quer sair na Vejinha, quer ser entrevistado na TV, quer festa de lançamento, mala-direta, ir no Jô Soares...

Mas não quer ser taxado de comercialista!

Meus autores favoritos são Terry Pratchett e Douglas Adams.
O primeiro faz fantasia e o segundo FC. Mas ambos trabalham com HUMOR, satirizando os clichês desses tipos de livros.
E são ótimos no que fazem!
É literatura "comercial" mas divertidíssima, engraçada, simpática, agradável e que vende horrores!

Portanto, é possível escrever comercialmente mas sem vender sua alma.

E se vender, não tem problema: ela não existe mesmo...

Eu Sou um Revolucionário Literário!

Sim. Eu me considero um revolucionário. Porque não vou na corrente que escreve textos bundão-cabeça. Eu quero pipoca mesmo, popcorn com carê, Doritos com mandioca!


Estou pegando elementos da cultura pop japonesa e misturando a nossa cultura.

Nada de saci, mula-sem-cabeça, índio, Brasil, pátria amada, salve-salve. Não.

Eu pego elementos urbanos brasileiros e acrescento idéias e premissas do mangá.

Um avião que cai numa rua gera um personagem que transcende a Morte e encontra o amor anárquico com duas garotas que nada mais são que simbologias espíritas!

O grande senhor do império do astral superior (umbanda esotérica) se transforma no amaldiçoado cão que aprisiona e escraviza a humanidade, impedindo-a de ascender ao Real (Matrix)!

E ainda tem quadrinhos no meio do meu livro, um gibizinho alucinado, que vira e revira a história do avesso!

Só te digo isso: eu mostrei um de meus livros, rascunhado, para um carinha que me acompanha desde 1990, quando editei minha primeira revista.
Ele queria ler um texto meu e eu mandei, a custa de testar a resposta do menino.

Deu duas semanas e ele me escreveu de volta.

Ele estava completamente alucinado de felicidade.
Disse que se divertiu, que viu cada cena que escrevi como a imaginei...

E ele me disse que sou um digno sucessor de Monteiro Lobato!

Tirando o delírio do menino, que eu rechaço, é ESSA a reação que busco no leitor jovem!
Se ele se emocionar, curtir, amar e vier me agradecer pelos bons momentos de alegria que teve...

Missão cuprida!

Você viu direito a foto aí de cima? Eu tirei quando fui, semana passada, no cemitério do Araçá, aqui ao lado do metrô Clínicas, em SP. Pois lá tem umas coisas que eu precisava ver e bla, bla, bla.

Mas vem cá, ô malandro! Vem cá, ô esperto!

Tu prestou atenção na foto? Pois é, meu amiguinho! Isso aí é um túmulo.Também conhecido como jazigo perpétuo. Tá abandonado, mas inspira. É o lugar onde se colocam os caixões com defuntos dentro. Ou seja, é a caminha do morto. O lugar onde alguém vai colocar sua carcaça depois do "suspiro derradeiro".

Muito bem.

Toda esse lenga-lenga, "datada" como dizem alguns, é prá te fazer pensar um pouco. Prá cutucar um tiquinho que seja essa sua cabeça de bosta, terceiro-mundista, cheia de lixo, bobagem e demagogia. Só o fato de você olhar prá foto já deveria causa apreensão.

Por isso eu acho que todo mundo deveria ir ao cemitério uma vez por mês. Para alguns, deveria ter a obrigação de ir uma vez por semana. E tem um cara que eu conheço que deveria morar no cemitério, de tão "bah", de tão "nhiéh", de tão "que me importa tudo" que ele é. Ou então, deveria ter um cemitério ao lado, ou dentro, de cada empresa. Uma urna urna funerária, uma praça com lápides, enfim, qualquer coisa que nos fizesse lembrar da Morte. Porque ela taí, chegando e certeira. E a gente insiste em fazer de conta que não tem nada a ver com a gente.

"Como? É comigo? O senhor está falando comigo, é? Não, não conheço o assunto, não. Ahn, poderia soletrar?"

Eu confesso pra você que fiquei abalado com o cemitério. Porque a última vez que eu fui nesse lugar foi há uns 20 anos. Foi no enterro do meu pai e tals. Nem preciso dizer que foi um ocasião para se lembrar, com presença de trocentos parentes, amigos, colegas, vizinhos. O meu pai era muito querido, muito considerado porque tirava neguinho da cadeia, era amigo e conselheiro de quem precisasse e teve uma vida difícil, árdua, trabalhosa, casou com uma mulher complicada, mas com todas as compensações que ele fez por merecer.

Daí, quando vi o estado do jazigo da família (não é esse aí da foto, que eu não sou besta de colocar ele aqui pois se teve dublador sem caráter, covarde e desqualificado que foi fazer minha caveira com um antigo chefe meu, imagine o que vagabundo da Internet vai fazer com os ossinhos de meus familiares), fiquei pensando numas coisas.

A primeira é que o jazigo reflete o que realmente pensávamos dos mortos quando e vida. O jazigo é "a casa do descanso eterno", como dizem os Emos malucos. Ou o lugar em que "se espera o chamado do Senhor", como dizem outros loucos. Prá mim não é nada disso, é só o canto em que deixam nossos corpos apodrecerem pro bicho comer... 

Mas é também um lugar de homenagens e meditação.

Lugar de respeito por quem foi e por quem vai (você), de demonstração de consideração para com nossos antepassados e para com aqueles que, daqui a pouco, ali estarão. Por aqueles que nos deram a vida, a saúde, a casa, a educação ou a simples Existência e por aqueles que desfrutam delas.

Não que os mortos tenham sido grandes coisas em vida. O meu irmão Paulo, alcoólatra mas a pessoa mais gentil e doce que conheci na vida, casou-se com uma bruaca que, assim que ele morreu de enfarto, a primeira coisa que fez foi sacar-lhe o fundo de garantia e catar o auxílio funeral. Vapt, vupt. O meu pai, policial civil, torturador e matador de bandido, lenda viva do DEIC, homem de respeito e de outros tempos em qeu a palavra dada valia muito, morreu esquálido e miseravelmente. E minha irmã fez umas coisas que não posso publicar de tão vergonhosas. A minha tia, a "filha ilegítima" conforme consta em sua certidão de óbito... Bom, ninguém gostava da desgraçada mesmo, exatamente por ela ser uma jararaca mesquinha e sórdida, então foda-se, não prestava em vida, na Morte ela faz um favor ao mundo se ausentando. A minha avó, a matriarca da negrada, o fruto do qual viemos todos nós (direta ou indiretamente), tem em seus netos um bando de abutres que só pensam em tomar dela o terreninho onde hove vivo...

Então, qual é o lance?

O jazigo de nossa família está aos cacos. Não tanto quanto esse aí da foto, mas é por aí. Mas não está muito diferente dos demais jazigos, não. A grande maioria está acabadaça, largada, apodrecida, com tudo aberto, cheio de mato, limo, lodo ou com a terra tomando tudo. E deve ser pior nos outros cemitérios da cidade. Quanto mais pelo país.

Então eu sei que o jazigo bem arrumado, bem cuidado e limpo, não apenas demonstra o quão os mortos eram queridos mas de que maneira os vivos respeitam e valorizam os que daqui se foram.

E valorizam a si mesmos.

Eu fiquei um tempo meditando no cemitério, olhando tudo aquilo e muito mais. Fazia um sol lascado, o céu estava azul e bonitão. Haviam passarinhos cantando, vi até um exemplar de cardeal, um pássaro que jamais vi em São Paulo, empoleirado no alto de uma árvore frondosa. Haviam gatos passeando, um monte de garis limpando alguns jazigos e, claro, ninguém visitando o lugar. No máximo tinha lá duas velhinhas chorosas, na administração do cemitério, querendo enterrar sei lá quem, mas prontas prá irem embora o mais depressa possível do lugar.

Porque nossa cultura não tolera cemitério. Temos um pavor medonho da Morte e de tudo o que for relacionado à ela.

Só que isso é consequência de outras coisas. Se a gente se destrata em vida, o que dizer dos mortos? Não tem como evitar, se esculhambamos nossa existência com mentiras, delírios, ilusões e pouco caso, os mortos (e por consequência nós mesmos) também estamos na mesma caçapa.

E, ouso dizer, tem muita, mas muita gente aí, que está morta em vida. Zumbis de olhos abertos, vivendo existências inúteis, comuns e corriqueiras, que vão descer prá gaveta e ser rapidamente esquecidos. Ou terão seus crânios secos usados em experiências de dentistas.

Eu pensei em fazer esse texto prá dar um aviso, dar conselho ou qualquer coisa assim. Mas, sinceramente, não sei o que dizer.

Não sei o que dizer.

Só sinto que somos breves e nossa existência bastante efêmera... Mas nada se compara à Verdade que fazem com nossos restos mortais.

Consequência, né? É tudo consequência.

Duas Coisas Que Precisavam Acabar

A primeira delas é essa mania tola e fútil de se referir aos consumidores de filmes, seriados, quadrinhos como sendo... Fãs.

Porque é burrice.

A pessoa que gosta de algo não precisa ser fã de nada. Ela pode simplesmente gostar, curtir e acompanhar e pronto. Mais nada. Já o fã é uma parcela infinitesimal desse imenso espectro de consumidores. Ele está lá na rebarbinha e jamais deveria ser tratado como o alvo principal. Imagine o que seria da indústria de fogões, geladeiras, carros ou computadores se apenas objetivassem os fãs.

Porque é preconceito.

Certos segmentos de mídia, especialmente os de série de TV, quadrinhos e games, são mantidos por senhores de idade avançada que consideram seus consumidores como "crianças" estúpidas que só merecem ser exploradas. É isso mesmo, o camarada que banca uma network de informações primeiro se baseou numa premissa equivocada, bastante estadunidense, que diz que tudo é fã. E se é fã, é retardado, burro, cretino e criança. E que tem que ser tratado feito criança mesmo. Mas o pior é que muito "jornalista e site especializado" embarca nessa, se referindo ao público que gosta de Fringe, Heroes ou House como fã.

Os fãs de Perdidos no Espaço, os fãs de anime...

E, incrível, muita gente assume o rótulo e se diz fã! É o feedback das mentes inferiores, meu caro! Macaco vê, macaco faz!

A segunda coisa que deveriam acabar são os prêmios, concursos e citações disso ou daquilo que contam como fator de qualidade indiscutível desta ou daquela obra, deste ou aquele produto ou profissional. Esse estratagema é muito comum quando se tenta empulhar alguma obra vagabunda, elitista ou "cabeça", ou algum sujeito insípido e vazio, para um público latino que leva mais em conta mais as flâmulas e medalhinhas do que a obra, ou pessoa, tem a dizer ou a acrescentar.

Esse é um vício típico do Terceiro Mundo.

Não que as premiações sejam mais ou menos importantes. Há prêmios e prêmios. Um prêmio Nobel é bem diferente de um prêmio Jabuti. Um prêmio Nebula ou Will Eisner é bem diferente do prêmio dado pela prefeitura de Brogodó da Serra. A diferença é a credibilidade e a seriedade.

A bem da verdade, os prêmios só servem para enaltecer e bajular. Funcionam como peça de marketing muito do ordinário, muito do mequetrefe...

Pois o que mais importa é ser lido. É ser assistido, conhecido, enfim, o que importa é o que se tem a dizer e não o que meia-dúzia de amiguinhos ou colegas que se reúnem na calada da noite, sempre em votações misteriosas, secretas, e que usam critérios obscuros.

E que elegem uns fulaninhos que ninguém conhece mas oh! Como são paparicados!

É corte. É vício mental do brasileiro, coisa de cucaracha. Se tem uma corte, se tem um grupinho de "amiches" ou confrades, eles desandam a premiar uns aos outros. Não importa se o camarada escreve bem, se o trabalho dele presta, se ele plagia ilustrações dos outros.

Dane-se.

Se ele é eleito pela turminha, é carregado nos ombros e enaltecido pois ele faz parte da um micro-reinado de mendigos maltrapilhos.

Mesmo que ninguém o leia. Nem sua turminha!

Fora com os fãs! Fora com os prêmios! Vê se amadurece, cara!

Drips And Drops: Breves Pensamentos Sobre o Impensável

Vamos assumir a Verdade: o maior produto nacional é a mentira. Eu acho que não existe país mais mentiroso que o Brasil. Bom, talvez a Coréia do Norte. Ou a do Sul. Ou os EUA. Ou o resto do mundo, sei lá. Não conheço o resto do mundo, então não sei dizer.

Mas como as pessoas mentem aqui no Brasil, hei? E eu fico impressionado como a gente convive com a mentira com total naturalidade, com completa conivência. Fica parecendo que todos tem a ganhar alguma coisa com a mentira e talvez essa seja a única Verdade nisso tudo.

A mentira é uma instituição. Lá do andar de cima até o subsolo da sociedade, mente-se com a maior cara-de-pau, com o maior descaramento. As vezes a mentira dá um certo alento à pessoa que justifica uma série de situações com ela.

"A gente ganha pouco mas se diverte." Nah! Ninguém que é pobre se diverte. Porque pobre não se diverte: foge. O pobre não deseja se divertir, brincar, alegrar-se. No Brasil, a diversão é sinônimo de fuga. O subsolo do país raramente sabe o que é brincar. Exceto as crianças, claro, mas elas são ignorantes. Mas assim que percebem que suas brincadeiras podem lhe render alguma coisa, podem até brincar mas... Lá está o interesse entre as linhas. Afinal de contas é nas crianças que se começa a plantar a sementinha da desfaçatez, do interesse, da sacanagem que tanto permeia o povo brasileiro!

Este começo de 2010 fo marcado pelo desespero. Eu acho que poucas foram as vezes em que a TV, jornais, rádios e sites de notícias foram tão "pra baixo" de um lado e tão cínicos de outro.

Todo mundo está falando daquele deslizamento em Ilha Grande, no Rio, em que uma linda pousada foi esmagada por toneladas de terra. Comoção geral. Gente jovem, bonita, rica e bem nascida encontrou seu destino final debaixo de lama, entulho e sujeira. E a mídia, esse bando de abutres carniceiros, a quisa de querer levar a "verdade" à população (como se um eletrodoméstico bancado por anunciantes fosse capaz de dizer a Verdade ou pelo menos manter-se neutro, pobre daquele que acredita nisso), explora ao máximo a desgraça alheia. Pois é esse o maná dos caras, eles te aprisionam pela exposição de tragédias e histerismo.

Por outro lado, essa é uma chance importante para que nós, que temos um tiquinho a mais de discernimento, possamos perceber como é que a mentira age: a maior delas é a presença de Deus em tudo. Eu vi lá um camarada agradecendo a Deus por ter sido salvo. Outra mocinha também agradeceu a Deus, um evangélico que perdeu seis pessoas da família alegou ter sido tudo parte do "plano de Deus"...

Só que foi Deus que fez chover, não é mesmo? Foi Deus quem colocou as pessoas em áreas de risco e que derrubou terra em áreas que nem de risco eram! Então, como é que se pode atribuir os benefícios a Deus se ele mesmo colocou no mundo a danação, a desgraça e a Morte?

Outra grande mentira é essa comoção que todos dizem sentir pelas vítimas desses desabamentos. Já estão surgindo doações de água, alimentos, roupas e colchões para os desabrigados. O que é muito digno e justo mas... E o planejamento? E a previsão para evitar que as inundações não mais possam afetar tanto assim as pessoas? Que vai chover e alagar tudo, isso ninguém discute. Mas não seria o momento de começar a remover as cidades que foram construídas na beira de rios? Ou remover bairros construídos em áreas de mananciais ou sujeitos a alagamentos, como é o caso do Jardim Pantanal, aqui em São Paulo, que há ANOS E ANOS convive com essas enchenets?

Não. O Poder Público, na figura de nossos digníssimos prefeitos, secretários, vereadores, givernadores, deputados e mesmo com o Exmo. Sr. Lula, são excelentes em dar desculpas. E a desculpa é uma forma contemporizadora de mentiras mas... Ainda é uma mentira.

Porque eles não vão fazer nada! Vão correr e decretar "luto oficial", váo sacar do bolso a Defesa Civil, que tem seu valor e seu mérito, mas que faz um estardalhaço interditando isso, fechando aquilo, proibindo e acontecendo... Mas tá assim de lugar construído em área de risco que, com toda certeza, até março vai estar no chão graças às chuvas dessa época.

Mentimos com total tranquilidade, mentimos com a Consciência tranquila e essa é a pior de todas as mentiras: não é comigo, não tenho nada com isso, não sei de nada. Só que pagamos impostos, né? Só o fato de você estar me lendo agora gerou um imposto. Ou o imposto em seu cigarro, no seu café, na eletricidade, em tudo que se usa, compra ou aluga, e mesmo no que você doa, é por onde nos tornamos unidos. Porque financiamos uma máquina estatal falida e sucateada. Que não funciona, que não presta, que deveria ser jogada no lixo pra se recomeçar.

Mas não. Mentimos porque achamos que "as coisas são assim mesmo, o que se há de fazer?" Sabemos que as coisas não poderiam ser assim. Que deveriam ser de outro jeito. E que poderíamos nos mobilizar, nem que fosse individualmente mas depois coletivamente para se buscar soluções, alternativas ou mesmo ir eliminando esses políticos ineficientes que nada fazem... Ou que criam leis das mais estúpidas e inúteis, confusas, contra nossos interesses e inaplicáveis.

Fazemos alguma coisa? Não. A maioria delega a decisão ao maior super-ser imaginário, Deus, para que suas mãos cuidem de tudo. E já sabemos que Deus é um tremendo dum sacana que mata primeiro e pede adoração depois.

Então, como é que fica?

Fica assim. Todo mundo mentindo e achando que está tudo certo.

E aí vem o Carnaval, a grande festa popular em que enaltecemos a mentira d etal maneira que achamos que quanto mais mentirmos, mais felizes seremos.

E lá vou eu!

Lá-vou-eu!

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© 2009 José Roberto Pereira.

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